quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Para-Pente

Segunda, 28 de Fevereiro de 2005

Mais uma conversa tida com o Pedro. Sempre me preocupei em escrever fielmente o que se passava entre nós dois. Recorria ao meu diário a escrever as conversas que tínhamos. Era para a posteridade, como costumávamos dizer.
Também escrevi um livro, mas as personagens são diferentes. Eu não sou psicóloga e ele não trabalha na REFER. 
Mais uma vez estou aqui para relatar o que se passou neste dia.
Já me habituara ao toque do telefone logo pela manhã. Também me habituara a ver as horas para ser fidedigna ao meu diário que me acompanhava sempre.
08h49m37s

- Estou sim, por favor? ( Eu já sabia que era o Pedro, mas nunca tinha certeza. Tinha que ter a máxima cautela. Poderia ser o meu marido ou a minha irmã. )
- Sou eu, Amor mio. A esta hora já sabes que sou eu.
- Nem sempre. Pode ser o meu marido ou a minha irmã para me falar da minha mãe.
- Mas o teu marido telefona  assim tanta vez? Nunca me tinhas dito isso. 
- Nunca veio à conversa. Tenho que ter muito cuidado.
- Então dormiste bem? Eu dormi a pensar em ti. A pensar no nosso passeio de Sábado? Gostastes?
- Gostei muito.
- Tenho pena de não ter andado de para-pente. Um dia hei de experimentar.
- Acho isso um absurdo. Pode acontecer uma desgraça e eu não te quero perder. 
- A sério? Mas nunca me perderás. Juro. Um dia ainda deixo a minha Maria para vivermos só nos dois.
- Outra vez essa conversa? Sabes que nunca vai acontecer.
- Porquê? Eu quero estar sempre contigo e vamos ser felizes para sempre.
- Assim também somos, não achas?
- Não. Não gosto de te repartir com outro. Isso deixa-me louco.
- Mas tu não me repartes com ninguém. Sabes disso.
- Mas dormem na mesma cama.
- Eu deveria ter mais ciúmes. Tu fazes vida com a tua mulher. Eu não faço vida com o meu marido.
- Um dia acordas e ele está-te a fazer carícias.
- Não penses nisso. Somos muito amigos. Só isso.
- Ainda falando no para-pente. Gostava de experimentar. Deve ser uma sensação fora do normal. Pagas-me uma viagem de batismo?
- Já te disse que não te quero perder. Não contes com isso.
- Gostava mesmo. Tu pagas e eu só digo depois de ter ido e envio-te uma fotos.
- Se queres, vais com o teu dinheiro. Não quero contribuir para uma desgraça.
- És mesmo mazinha!
- Não sou nada. Apenas quero o teu bem-estar.
- Bem, já que não me pagas a viagem, vou trabalhar.
- Acho bem. É para isso que te pagam.
- Sabes para onde vou hoje?
- Não. Ainda não disseste.
- Vou para Casa Branca.
- Isso fica no Alentejo.
- Sim, fica. Posso telefonar se tiver possibilidades?
- Só depois das cinco.
_ Beijinhos só nossos onde e como quiseres. Hum! Tão bom.
- Beijinhos e até logo.


18h23m12s

< Amor mio cheguei agora ao Oriente e ainda tenho que preencher uns papéis. Já não deu para falarmos. Estava um frio de arrepiar. Tu sabes como é. Logo vais ao msn? Espero por ti pelas, 9h45m. Pode ser? Se não poder, envia mensagem para o telemóvel. Bjs onde e como quiseres. Adoro-te sabia? >

Nesse dia não pude ir ao msn. Enviei mensagem. Também já não me enviou nada de volta.



segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A vinda para Lisboa!

Domingo, 27 de Fevereiro de 2005

Nesta época Natalícia, estive ausente. Hoje, porém, voltei à ribalta.
Mais umas mensagens deixadas pelo Fernando Pedro. Sei que ele tem partido muitos corações depois de ter deixado de andar comigo. Continua o mesmo biltre de sempre. Há mulheres que esquecem e continuam a sua vida, mas outras continuam agarradas ao passado e às malandrices que ele lhes fez. Eu, contudo, segui a minha vida. Apenas escrevo para alertar outras mulheres que tenham acesso ao meu blog. Não estou obcecada com isso. A raiva que senti noutros tempos, já não a sinto. Sou uma mulher liberta do fantasma do passado. Enfim, sou livre.

Neste Domingo as mensagens foram poucas. Passámos mais tempo no msn. 

10h23m14s

< Bom dia amor mio. Tenho saudades tuas. Aparece no msn às 15h. Bjs só nossos. >

Eu fui fiel. Às quinze horas estava na saleta ao computador à espera dele. Logo me chamou e falámos imenso. Falou-me que tinha vindo para Lisboa para servir de paquete numa fábrica onde estava uma prima dele. Tinha, na altura, doze anos. Disse-me que cedo começou a abrir os olhos e que o mulherio lhe ensinou muita coisa. Também me falou que a prima era a sua tutora, mas ele não gostava de ser um bibelot. Queria vida própria e depressa se embrenhou em algumas casas de fado para saber se poderia cantar. Não lhe foram abertas portas nesse sentido. Mas que, agora, cantava karaoke e se sentia muito feliz por isso. Eu já o tinha ouvido cantar o "Porto Sentido" e tinha gostado muito. Também me falou que era fã do João Pedro Pais. Um artista que não faz o meu género.
Falou-me, ainda, na conta para pagar nas finanças. E disse-me que qualquer dia ia visitá-lo às Mónicas. Falou do irmão que morreu num acidente de moto. Hoje sei que foi assassinado. Pelo menos é o que dizem na terra. Falou de muita coisa, mas não registei tudo.
A conversa terminou por que o meu marido me chamou.

21h54m38s

< Dorme bem. Gostei de desabar contigo. Bjs onde e como quiseres. > 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Ida a Setúbal!

Sábado, 26 de Fevereiro de 2005

Mais um lapso. É Dois mil e cinco. No Google mais já não dá para remediar.

Foi neste restaurante que eu e o Pedro almoçámos neste dia. Mas vou começar do princípio. Mais uma vez me sirvo do meu diário. Sem ele, sentir-me-ia perdida.

Pelas 10h da manhã já me encontrava à porta do Centro Vasco da Gama. Andavam, ainda, a preparar tudo para o abrir. O chão estava molhado e pessoas passavam apressadas para as suas lojas. Eu encostei-me à porta, do lado de dentro pois fazia muito frio, embora o sol brilhasse. Levava o meu casaco vermelho. De repente senti uma mão nas costas e dei um salto de susto.
Era o Pedro que vinha de dentro do Centro. Levou-me, novamente, para o sítio dos autocarros. Lá tinha deixado o seu Mercedes Benz estacionado.
Abriu-me a porta e convidou-me a entrar. Dali seguimos pela Ponte Vasco da Gama em direcção a Setúbal.
Conduziu devagar e sempre com muita atenção à estrada e aos outros condutores. Lá ia cantarolando os cantares de Alvito. Gostava particularmente da " Laurindinha ".  E batia com a mão a fazer de compasso no volante. Eu ouvia-o. De facto que eu gostava muito de o ouvir cantar. Mesmo com a voz de cana rachada, mas cantava bem.
Na Ponte passámos sem via verde. Disse que não queria que soubessem onde levava o carro.
A viagem correu bem. Em Setúbal, deixou o carro estacionado do lado contrário dos restaurantes. Atravessámos e fomos à procura de um. Ele escolheu o "Rei do Choco Frito", cuja foto eu escolhi para hoje.
Levámos algum tempo na fila, mas valeu a pena.
A mesa era só para dois e foi mais fácil arranjar. Comemos os chocos, salada e batata frita. Tudo estava muito bom, mas antes perguntou-me se eu já lá tinha estado com o meu marido. Menti. Eu já conhecia o restaurante e o serviço que era óptimo.
Não comi sobremesa nem café. Estava numa dieta. Andava em tratamento numa clínica para emagrecimento e tinha que seguir a dieta à risca.
Dali fomos para a Serra da Arrábida. Num dos miradouros desta Serra vimos que estavam a fazer para-pente. O Pedro disse que devia ser um desporto muito bom e que gostava de experimentar. Se eu alinhava. Hoje sei que ele queria que eu lhe pagasse, mas na altura pensei que me queria levar com ele naquela coisa e disse que não. Disse que deveria ser uma adrenalina tão intensa que deveria ser o máximo. Eu mostrei medo. Não sabia onde aquela coisa iria aterrar e se ficaríamos bem.
O Pedro ficou triste com a minha decisão e notou-se no seu semblante, mas eu referenciei alguns aspectos negativos.
Daqui fomos para o Portinho da Arrábida. Lanchámos num café ali mesmo à beira da estrada. Claro que quem pagava tudo, era eu. Ele ainda comprou trouxas de Azeitão e eu paguei. Disse que tinha dito em casa que vinha para Setúbal trabalhar e que tinha que levar qualquer coisa para calar a boca.
Fizemos o regresso para Lisboa. De vez em quando beijava a minha mão e metíamos as mudanças juntos.
No comboio foi a despedida de sempre. Beijinhos e abraços sem fim e quando a porta do comboio fechou, ele colocou a mão dele no vidro e eu a minha colada à dele. Eram sempre assim as nossas despedidas, até certo ponto. Depois começaram a ser diferentes por que ele já tinha o que queria.
E foi assim que terminou mais um dia com ele.
Regressei a casa e já não houve nem mensagens nem msn nesse dia. Tinha sido mais um dia cumprido na sua companhia.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Regar o Amor!

Sexta, 25 de Fevereiro de 2005

Por aqui passei muitas vezes com o Pedro. Hoje não quero recordar esses dias e esses momentos nefastos na minha vida tão pacata que tinha antes do conhecer. Mas era eu e depois passei a ser outra pessoa que me fazia ser diferente, sensível, apaixonada e acreditar em cada palavra que vinha da sua boca nojenta e  sem qualquer brio que o levasse a ser diferente para comigo. Ele era o demónio. Eram chifres que ele carregava na cabeça em vez daqueles cabelos pintados de preto e com aquele corte à rapazola. 
Mais uma vez, estou diante do meu diário e mais uma vez, eu vejo o quanto ele era hipócrita e desonesto.

08h56m37s

- Estou sim, por favor?
- E eu também estou aqui para falar um cadinho contigo. Pode ser?
- Claro que pode. Por que não?
- Sei lá. Diz-me tu. Estás sozinha?
- Sim. Porquê? Deveria estar mais alguém aqui? Que eu saiba, não. O meu marido já está a trabalhar, a minha filha está na A****** e a Glorinha só vem à 1h da tarde.
- As tuas colegas podiam ter dormido aí.
- Vá lá, não sejas infantil. Elas foram embora.
- É que ontem tinhas o telemóvel desligado e não aparecestes no msn.
- Ah! É só isso?
- E achas pouco? Ou só elas é que contam para ti?
- Não. Tu contas mais. Mas eu não posso arriscar. Queres estragar tudo? Temos que ter cautela.
- Pois, isso. Ontem era bom falarmos. Ela estava a trabalhar.
- Mas eu tenho o meu marido todos os serões comigo. Ele já só me pergunta quem envia mensagens tão tarde. Temos que ser mais comedidos. 
- E eu a sofrer o teu silêncio. A sofrer à espera que apareças e a ficar destroçado quando não apareces. Nem durmo de noite.
- A sério? Coitadinho. E eu é que durmo mal.
- Bem. Amanhã como é que é! Vens ter comigo?
-  Estava a pensar nisso. O meu marido já disse que vai à minha sogra e que janta lá.
- É bom. Vamos até Setúbal comer peixinho fresco.
- A sério? Mas isso é bom. Há uns restaurantes à beira rio muito bons.
- Ei, pera lá... Quem vais escolher, sou eu. Não quero ir onde já fostes com o teu marido. Isso dá-me voltas ao estômago.
- Está bem. Nem vou dizer nada. Tu é que orientas tudo. Para quê eu. Para que sirvo? Eu sei para que sirvo.
- Bem, fica combinado. Amanhã vem cedo. Vens ter comigo. Está aqui às 10 horas. 
- Até nas horas mandas. Mas está bem. Eu estou aí.
- Assim, digo em casa que venho trabalhar e digo que vou para Setúbal.
- Eu nem digo nada. Ele escusa de saber que saí.
- É melhor. Eu trago-te sã e salva. Agora deixamos de tanta converseta. Tenho que ir trabalhar.
- Até logo, depois das 5.
- Só depois das 5?
- Sim. É quando a Glorinha sai.
- Vá, beijokinhas onde e como quiseres. Onde? Diz lá...
- Onde é hábito. Nos lábios.
- Pois... Já tenho beijado outras coisas.
- Não sejas ordinário. Esquece.
- Hum! Aqueles beijinhos naquele sítio tão quentinho e delicioso?
- Beijinhos e até logo.
- Beijinhos e fica bem.

17h12m31s

- Quem fala, por favor?
- Daqui planeta Vénus, chama terra. 
- Que espiritualista! Sabes o que é Vénus para os apaixonados?
- Sei. É a Deusa do Amor. E o nosso Amor precisa de ser abençoado por ela. De vez em quando precisamos de apimentar e regar o nosso amor.
- Eu rego com carinho, afecto, amor, ternura...
- Pois, mas isso não chega.
- Então que tenho que fazer para ser mais regado?
- Puxa pela cabeça.
- Não sei. Não sei onde queres chegar.
- Um dia vais perceber, mas pode ser tarde.
- Lá para a noitinha? Já é tarde da noite.
- Não me refiro a "essa tarde".
- Terás que me explicar melhor. Eu não entendo e depois fico em baixo por que não sei onde queres chegar. Não sei o que fazer com "esse regar o Amor"
- Bem, amanhã aqui às 10 horas. Logo vais ao msn?
- Não posso arriscar, mas vou ver o que posso fazer.
- Vá, fica bem. Beijikonhas só nossas, do jeito que tu dás. Hum! Tão gostoso. Amanhã vamos dar muitas.
Beijinhos de mel.
- Inté amanhã.

21h42m43s

< Estou no msn. Bjs, >

Fui ao msn e falámos pouco. O meu marido vinha cansado e foi deitar-se ao mesmo tempo que eu. Como tinha o computador na saleta, ele via que eu estava a falar com alguém. Mas combinámos o nosso encontro.



sábado, 19 de dezembro de 2015

Comparar!

Quinta, 24 de Fevereiro de 2005

É uma foto do grupo de cantares de Alvito. Terra que viu nascer o sociopata de que falo agora.

Estive a ler o meu diário e vi quanta coisa desagradável e repugnante me fez o Pedro. Nada fica impune. Um dia irá pagar por tudo o que já fez a tanta mulher e continua a fazer. O Juiz Supremo dá de volta o que fazemos quer ser bom ou mau.
Nesta Quinta eu tinha as minhas colegas a passarem o dia comigo. Nada me deu mais gozo na vida. Foi um dia em que esqueci que andava com o Pedro e um dia para recordar de tanta coisa boa. Porém, logo cedo, tive-o a chatear-me. Mas a partir daí, o dia foi para mim e para dedicar àquelas que me ajudaram em tempos difíceis.
Como sempre, o telefone tocou. Eu vinha a sair da casa de banho já pronta e alegre. Mas aquele toque fez-me arrepiar e descer à terra.
Eram 08h32m20s

- Estou sim, por favor?
- Amor mio, sou eu. Ainda estás sozinha?
- Vê-se, não. É que hoje já não voltamos a falar. Elas devem estar a chegar.
- Então vai ser um dia em grande, né?
- Vai ser um dia maravilhoso. Não vou esquecer.
- Com essa converseta estás a querer dizer que comigo não é maravilhoso?
- Nada disso. Tu é que pões palavras na minha boca que eu não disse.
- Então os nossos dias são mais maravilhosos?
- Cada um tem a sua beleza e sentidos diferentes. Nada de comparar.
- Ok! Eu não comparo, prontos.
- É melhor. Estás sempre a desdizer o que eu digo. Sempre contrapões. Não é bonito.
- Não te zangues ´mor. E não posso enviar mensagens?
- É melhor não. 
- Prontos, já sei que não te vais lembrar de mim.
- Nada te leva a pensar assim. És tão desconfiado que me deixa triste. Bolas!
- Vá. Diverte-te. Fica bem. Beijinhos onde e como quiseres, minha Shakti.
- Beijinhos para ti também.
- Ouve, posso esperar por ti no msn? ( Eu ouvi-o, mas fingi que já estava a desligar ).
- Já não me ouviu. A pressa de desligar. Porra...

Neste dia ficámos por aqui, eu e o Pedro. Quando o meu marido chegou, elas ainda estavam cá. Cumprimentaram-no e disseram que tinha sido um dia muito agradável. O meu marido foi para a cozinha e nós ainda ficámos nas despedidas e nas promessas de mais dias assim. À noite contei ao meu marido como o dia tinha sido divertido. Deitei-me muito feliz e satisfeita. O dia não poderia ter corrido melhor.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Uma converseta!

Quarta, 23 de Fevereiro de 2005

Ontem, por lapso, escrevi esta data. Hoje corrijo. Ontem já não me deu para o fazer. Apenas justificar.

É a estação dos comboios em Entrecampos. Era aqui que eu descia do comboio e esperava tempo sem fim pelo Pedro. 
Era Quarta, o nosso dia, como o Pedro gostava de dizer.
Logo, pela manhã, eu recebi uma mensagem das minhas colegas a desmarcar. Uma delas não podia vir ter comigo. Então marcámos para quinta.  Quando o Pedro telefonou, já eu tinha a "boa nova" como ele a apelidou.
Eram 09h01m43s quando o telefone silvou. Desta vez não me enganei. Sabia que era o Pedro e tinha que lhe dizer que as minhas colegas não vinham.
Atendi o telefone, mas não sabia o que me esperava.

- Estou sim, por favor?
- Amor mio, sou eu para mais uma converseta. Não nos podemos demorar. As tuas colegas podem chegar.
- Não. Podes estar à vontade. Elas enviaram uma mensagem a dizer que só vêm amanhã.
- Mas isso é óptimo. Eu vou agora para Entrecampos e tu podes lá ir ter comigo. Afinal é o "nosso dia".
- Sim. Mas não será apertado?
- Não estás pronta?
- Estou. Como as esperava, levantei-me mais cedo e despachei-me.
- Então corre para a estação e vai ter a Entrecampos.
- Está bem. Beijinho e até já.
- Beijinhos que vou dar daqui a pouco.

Desligámos o telefone e eu fui apanhar o comboio. 
Cheguei a Entrecampos pouco passava das 11h da manhã. Desci e fiquei sentada num banco, frente para a Feira Popular. Estava muito frio. Eu bem me enrolava no meu casaco vermelho, mas o frio entrava-me pelos ossos.
Já passava do meio dia quando o Pedro apareceu, esbaforido e sem fôlego. Perguntou se eu já estava ali há muito tempo e eu respondi que sim. Ele disse que tinha estado a terminar um trabalho para poder ficar comigo.
Saímos e fomos na direção  norte para a p****.
Na esquina da 5 de Outubro estava uma caixa de multibanco. Ele parou para levantar dinheiro. Quando o dinheiro saiu, olhou para o papel e, muito sério, disse-me: - É o último. Fico com a conta a zero até receber.
Fiquei aflita e sem saber o que dizer. Mas pensei pagar eu, como acontecia sempre. Ele já fez aquilo de propósito. Sabia que eu iria dar-lhe o dinheiro para pagar na recepção. e assim foi. Tirei dinheiro da minha carteira e quando me deu a mão, eu passei o dinheiro para a dele.
Vi que tinha ficado aliviado e pensei que fosse verdade. Eu não sabia o sabujo que ele era. Vim a descobrir mais tarde.
Ficámos no mesmo quarto, junto à cozinha e no segundo andar. Já descrevi o mobiliário e a disposição das camas.
Desta vez escolhemos a melhor. Ele deitou toda a roupa para trás e disse que estava tudo muito asseado. Foi dar uma espreitadela na casa de banho e disse o mesmo. Eu mantinha-me em pé sem saber o que fazer. Ainda me sentia muito mal com estas situações. Mas ele depressa me pôs à vontade. Foi tudo maravilhoso. Sabe como fazer para agradar a uma mulher.
Depois, depois ficámos na converseta, como ele dizia muitas vezes. Voltou-se a falar no dinheiro das finanças. Não sabia como arranjá-lo e eu também não. Sempre lhe mencionei que, se fosse uma quantia mais pequena, eu iria ajudá-lo. Ele disse sempre que me pagaria até ao último cêntimo.
Falou, também, na outra casa. Disse que uma senhora tinha ido vê-la na véspera e que tinha dito que se a sala tivesse x metros quadrados que ficava com ela. Chamou-lhe louca. Disse que a sala era muito boa e que as casas estavam remodeladas. Eu não a conhecia e não podia falar sobre ela. Não o poderia ajudar. 
Perguntei-lhe à queima roupa se ele me amava. A resposta foi curta, concisa e sem valor sentimental. Respondeu-me com outra pergunta: - Amor, diz-me tu.
- Não sei- respondi eu com toda a franqueza. 
Ficou muito sério a olhar para mim, olhos nos olhos, e entrou em mim até ao fundo da minha alma. 
Senti-me pequenina e sem valor sentimental para ele. Tive vontade de lhe dar tabefes na cara até me saciar, mas fiquei muda e calada a olhar aqueles olhos cor de mel frios e distantes. Ele não tinha sentimentos, pensei eu. Mas não disse nada e desvalorizei o sucedido. Na altura não sei o que me passou pela cabeça. Apenas sei  que lhe lancei os meus braços à volta do pescoço e beijei-o apaixonadamente e com eloquência.
Com jeitinho, separou-se de mim e disse que estava na hora de sairmos. Fomos tomar banho e eu trauteei uma canção brasileira para ele. Começa assim:- Tu és a criatura mais linda
Que os meus olhos já viram.
Tu tens a boca mais bela 
Que a minha boca beijou.....
Ele ria a bandeiras despregadas e perguntou se que o que eu dizia, era verdade.
Só podia, dizia eu e continuava enquanto ele me lavava numa carícia sem fim.
Já na rua, fomos ao mesmo café. Ele pediu um pão por Deus com fiambre e eu um chá de camomila e uma sandes de queijo.
  Fomos para a estação do comboio. Fizemos as despedidas e eu voltei para casa.
À noite falámos no msn.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A Flor mais bela!

Quarta, 23 de Fevereiro de 2005

Por lapso, escrevi mal a data.

Sempre me orientei na minha vida. Mas, infelizmente, chegou o Pedro para me desviar do caminho correto e digno que sempre percorri. Sinto-me envergonhada e indigna de mim mesmo. Sou um sol envergonhado num dia de Inverno. Mas, agora, já não vivo com medo dele. Posso dizer com toda a segurança: - Cuidado, Pedro, que um dia posso voltar a desvendar todas as mentiras que inventaste para te safares. Tenho tudo arrumado e catalogado. Sabes onde estão? É o Sargento a quem mentiste que tem tudo. E verificou com as operadoras as mensagens que tu e a Dulcineia trocaram comigo. Também tem a mensagem que te deixei no Skype.  Basta uma palavra minha para tudo andar para a frente. Não o convenceste e ele não parou com a investigação. Tem-te seguido e sabe com quem te envolves. Cuidado, não me faças  sair do sério. Não basta teres o teu perfil fechado. Isso não chega. Um dia pagarás tudo a dobrar e com juros.
Vim só para escrever mais umas palermices  que me disseste.

Estava no remanso do meu quarto, quando o telefone começou a tocar. Não atendi. Mas tu, também, não desististe. Passado pouco tempo, voltaste a ligar e o telefone voltou a tocar ainda com mais estridência.
Peguei no auscultador com muita vagarosidade. Não tinha pressa de ouvir a tua voz esganiçada e a sair pelo nariz por tu terem partido aquando da luta que travaste com o teu rival.
Olhei o relógio e marcava 08h31m59s.

- Estou sim, faz favor?
- Ora, bom dia para a flor mais bela do meu jardim.
- Sim, e deves ter muitas agora no Inverno. Devem estar engelhadas com a geada, queimadas e sem brilho.
- Até tenho lá algumas e são lindas. Envio uma foto.
- Não precisa. Até poderia ser de um jardim público que eu não ia notar.
- Já me estás a dar para o azar?
- Não. Mas estamos no Inverno e há poucas flores. Quem é que tu queres enganar?
- Estás deitada? Acordei-te?
- Porquê? Não me digas que me estás a ver?
- Mas não atendestes quando eu te telefonei a primeira vez.
- Ah! Eras tu? Pensei que não fosses...
- Até parece que não ligo logo de manhã. Não atendestes por isso ou por outra coisa?
- Não sei. Diz-me tu.
- Tu é que tens que responder. Fostes tu que não atendestes. 
- Pois. Nem sempre estou ao lado do telefone à espera que sejas tu. Também tenho vida própria. E pode ser outra pessoa.
- Tens muitos telefonemas iguais aos meus?
- Porquê? Deveria ter? Estava impedido?
- Não. Mas não me atendestes.
- Já te disse. Nunca sei quando podes telefonar. E até pode ser o meu marido a pedir-me alguma coisa. Tenho que ter muito cuidado. Não posso estragar tudo. Certo?
- Certo. Queres vir almoçar comigo?
- Não posso.
- Nem se eu te dissesse  que preciso do teu apoio?
- Para quê? Para te mudar a fralda?
- Não. Ando outra vez com o pensamento no meu irmão. Já me ajudastes uma vez.
- Pois, mas hoje não posso. 
- Porquê?
- O meu marido está na serra de Mon******** e vem almoçar a casa com outro colega.
- Está bem. E amanhã? É o nosso dia...
- Mas não vai ser. Amanhã vêm cá as minhas colegas de V***********. Vêm passar o dia comigo.
- Está bem. Agora vou ter uma reunião. Tenho que sair já. Beijoquinhas onde e como quiseres. Amo-te muito.
- Até logo. Beijinhos.
- Ouve... Posso ligar logo?
- Não. Não sei a que horas vem o meu marido. Envia mensagem.
- Se puder. 
- Vais à reunião, eu sei... ( Desliguei )


17h20m35s

< Posso ligar? <

Disse que o meu marido já estava em casa. Não falei com ele no msn e nem enviou mensagem.


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