quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Pergunta sem resposta!

Terça , 22 de Fevereiro de 2005

Sempre que me disponho a ir buscar o meu diário e reescrever o que ele contém, sinto que a minha vida se quedou num abismo sem fim. Num labirinto de celas perdidas e que, por muito que eu queira, não consigo sair delas. São celas obscurecidas pelo tempo que me prenderam num passado tão distante que nem consigo enxergar a parede que as separa. Mas dando largas ao meu coração, sinto que estou livre e posso respirar o ar puro que circula à minha volta. Ar redescoberto depois de um passado tão devastador que me prendeu a um ser que não tem alma, coração e sensibilidade. Hoje sinto que sou eu e não a mulher amedrontada, despojada da sua dignidade, do seu coração imaculado e da sua vida com sentido. Mais umas quantas frases ditas sem sentido, sensibilidade e sem nada que nos prendesse um ao outro.
Parece que tinha um programador. Mais cinco, menos cinco, a hora era sempre a mesma e a lamuria do costume.

08h34m48s

- Estou sim. Quem fala, por favor?
- Estou farto de dizer que a esta hora, sou eu, ´mor.
- Nem sempre. E não posso arriscar sem saber a certeza. Achas  que deva arriscar a dizer "olá Pedro, como estás?"
- Seria o dia mais feliz da minha vida. Era porque já estávamos juntos e sem preconceitos e tabus.
- Nem sei como te hei de responder.
- Da maneira mais simples. " Quero ficar contigo para todo o sempre ".
- Calma. Parece que já estás a bater na mesma tecla outra vez.
- Não querias? Não me amas? Esta pergunta ficou sem responder ontem. Queres dar a reposta hoje?
- Pedro, isto é muito bonito por que estamos a viver longe e só nos encontramos de quando em vez. Se vivêssemos juntos, isto não durava nem uma semana. Olha o que aconteceu contigo? Comigo? Porquê? Por que estamos a viver com a mesma pessoa há muitos anos. É natural que sature. Mas também temos dias bons. Eu, pelo menos, tenho. E não os esqueço. São poucos mas servem para alimentar a relação.
- Eu nem sei o que isso é. 
- A sério? Não acredito. Olha a linda prenda que lhe deste no dia que ela fez anos! Até te enganaste e enviaste a foto para mim. Ou era para eu saber como a mimas? Para me fazeres ciúmes? Não, nada disso. Foi por que ela desejou isso e tu mataste-lhe o desejo. Fizeste-a feliz. E tu também ficaste feliz por que lhe deste uma coisa que ela gostava.
- Chi! Do que te foste lembrar.
- É só para veres que sei pesar os prós e os contras.
- Mas a pergunta, fica sem resposta. Vá responde...
- Já dei a minha resposta. Se não a entendes, é porque não queres. E ontem saíste-te muito bem. Deves estar habituado a situações dessas, não?
- Nem por isso. Já te disse que tenho que saber lidar com estas situações. O que ia dizer? Tinha que inventar, né?
- Pois. Se fosse comigo, ficava engasgada e não sabia que fazer. Ainda me chamas " mentirosa. "
- Porra! Isso nunca mais passa?
- Quando há oportunidade, é que é bom relembrar.
- Bem. Vou para Setúbal. Hoje vamos para lá trabalhar.
- E não vais engatar uma gata qualquer?
- Nem vou responder. Trabalho, é trabalho. Beijinhos onde e como quiseres.
- Bom trabalho e até logo.
- Ouve! Não me dás beijinhos?
- Está bem. Beijinhos, beijinhos, beijinhos.


17h10m43s

Estava a Glorinha a fechar a porta quando o telefone se começou a ouvir tocar. Dei graças a Deus. Despedi-me dela e fui atender.

- Por favor, quem fala?
- ´Mor sabes onde estou?
- Não. O telefone ainda não tem televisão...
- Estou ainda em Setúbal em cima de um placard aqui na estação. Nem sei quando nos vamos embora. Isto está demorado.
- Não posso saber. Como disse, o telefone ainda não tem televisão.
- Não acreditas? Queres ouvir um colega meu?
- Ouve! Quem pensas que sou? Não o quero ouvir a ele nem a ti. Beijinhos e até logo.
- Não fiques zangada. beijinhos só nossos. Vais ao msn?
- Não. Com licença. ( e desliguei o telefone. )

Não fui ao msn e o telemóvel esteve desligado.





terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Serás capaz de me deixar?

Segunda, 21 de Fevereiro de 2005

Mais uma foto do Freeport, local que visitei no Sábado, dia 19 / 2 com o Fernando Pedro C****** Marques.
Nesta Segunda as coisas não mudaram muito de sentido. O Pedro estava obcecado com o que eu lhe tinha dito. A pergunta era sempre a mesma " Seria eu capaz de o deixar"?
Já tinha pensado nisso tantas vezes, que não me custava nada deixá-lo, embora eu pensasse que o amava. Mas não era amor verdadeiro. Esse dura uma vida e o que eu tive com o Pedro durou pouco mais que nada.
Já estava acordada quando o telefone começou a tocar. Estava a pensar que seria brevemente tirada do meu sossego para me embrenhar numa conversa com ele que não levaria a lado nenhum. E assim aconteceu.
Antes de apanhar o auscultador, olhei para o relógio. Gostava de frisar as horas no meu diário. Hoje, ainda, faço isso. É para saber a hora de determinado acontecimento e deleitar-me ou não com ela. Entrar numa simbiose e percepção que me levem a um determinado momento. Se esse momento foi bom, alheio-me de tudo e entro de mansinho para me aconchegar e reviver o que me deixou tão feliz, mas se o assunto me eriçou os cabelos, reajo de maneira diferente e desligo absolutamente do assunto em questão.

08h34m29s

- Estou sim, por favor? ( Não iria arriscar e falar " olá Pedro, como estás"?para não ter um dissabor. E eu sabia que não poderia ser mais ninguém ).
- Bom dia, amor mio. Como dormistes? Eu tive  que repor as minhas energias. A outra noite nem preguei olho.
- Por que não quiseste. Ninguém te mandou ficar acordado, se acaso ficaste.
- E não fiquei? Nem imaginas como a passei. Até ela me perguntou o que eu tinha para não dormir e não a deixar dormir a ela...
- Hum! Vinhas dormir para o sofá.
- Não gozes, está bem? Fizestes-me passar um mau bocado. Nem penses deixar-me... E serias capaz de me deixar? Pergunto mais uma vez e todas as que forem preciso.
- Talvez sim e talvez não.
- Mau! Ainda não te decidiste? Ainda pensas nisso? Não estou a gostar nada disto.
- Sinceramente, não sei. As coisas aconteceram depressa de mais. Eu não estava preparada. E nem sei se estou.
- Mas eras capaz de me deixar assim sem mais quê nem p´ra quê? Não me faças isto...
- Isto o quê?
- Deixares-me. Abandonares-me, não te lembrares de mim, não teres pena de mim?
- Quem tem pena é a galinha.
- Não tem graça nenhuma. Estou a falar a sério...
- E eu também.
- De seres capaz de me deixares?
- Não. Isso são águas passadas. Não se fala mais sobre esse assunto. Ficou esclarecido.
- E não me vais deixar?
- Olha vamos mudar de assunto. Hoje ficas por aí?
- Nem sei. Estou à espera do chefe.
- Bem... Vê lá não venha ele e estejas a falar comigo...
- Se ele vier, faz de conta que estava a falar com um colega.
- Tu lá sabes. Já conheces muito bem como te deves safar. Já estás  habituado?
- Mas que raio de pergunta. Desconfias de mim agora?
- Não. Era para desconfiar?
- Tu amas-me?
- O quê? Que pergunta...
- Tem reposta... E já sabes se isso continuar avariado, telefona para aqui. Até logo. ( O chefe tinha entrado)
- Beijinhos e até logo. ( Desliguei e safei-me de responder. )

12h09m12s

< Vou almoçar. Bom almoço. Estou só e triste. Beijinhos para tua sobremesa. >

17h09m10s

< Tenho o chefe no meu gabinete. Estou triste porque não posso ouvir a tua voz. Logo vai ao msn para falarmos um cadinho. Ainda quero ter a certeza que não me vais deixar. Tu não podes fazer isso. És tudo para mim. Lembras da princesa Shakti? Tu és a minha princesa Shakti. Não me deixes e diz que me amas como eu te amo a ti. Sem ti morria. Deixa-me ser o teu princepe e serei tudo o que tu quiseres mas, não voltes a falar em me deixares. Bjs onde e como quiseres. Fica bem. Até logo amor. >

22h08m56s

< Sonha  comigo. Dorme bem. Foi bom falar contigo. Adoro-te sabia. Bjs só nossos. >







segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Domingo, 20 de Fevereiro de 2005

Uma foto muito original. É uma escola. Quem conhece, saberá que fica muito perto da casa do Fernando Pedro.

Neste Domingo o Pedro enviou-me um e-mail logo de manhã. Era um e-mail cheio de amor e de promessas que ele não conseguiria pagar. Promessas falsas e com um acre a sabor a mentira. Ele escrevia com muitos erros e eu sou fiel a escrever tal qual o que ele me dizia e o que se passava entre nós. Para isso, tenho o meu diário que me guia nesta regressão ao passado.Rezava assim:

10h10m23s

< Meu Amor de ontem de hoje e de amanhã. Ontem foi um dia maravilhoso mas, tenho que falar numa coisa que me deixou muito triste e nem sei como aceitá-la. Foi o teres dito que já me tinhas  pensado em deixar. Como podes pensar uma coisa dessas. Nem dormi. Pensei nisso a noite toda. Serás mesmo capas de me deixares assim do nada? Eu não acredito que tu penses nisso. Eu amo-te e és tudo para mim. Quero-te muito. És a minha princesa, a minha rainha, a minha flor do meu jardim, o sol que brilha para mim mesmo num dia de chuva, o meu respirar, a minha vida e ficava aqui, a dizer tudo o que tu representas para mim que não acabava nunca. Não penses em deixar-me eu, não aceito nunca. Vou atrás de ti sempre. Diz que não voltas a pensar o mesmo. Dá-me essa certesa e eu acredito. Não tenhas tais pensamentos pq eu não quero. Fazem mal ao nosso amor. Responde mas, não me deixes nunca. Sou teu para sempre. Bjs que só tu sabes dar e são tão gostozos que eu nem sei explicar. Teu Para sempre Pedro. >

Respondi muito evasiva e disse que não podia escrever muito por que o meu marido precisava do computador. Depois enviou mensagem, via telemóvel a dizer o seguinte.

16h45m43s

< Estou no msn. Podes vir? bjs. >

21h34m46s

< Que se passa? Vens falar um cadinho? bjs. >

22h10m57s

< Obrigado. Hoje durmo bem. Bjs só nossos. >




domingo, 13 de dezembro de 2015

Freeport!

Sábado, 19 de Fevereiro de 2005

Hoje brindo-vos com uma foto muito bonita do Freeport. Foi aqui que o Fernando Pedro me levou neste dia, há dez anos.

Era Sábado como menciono acima. Eu levantei-me cedo. Claro, depois do meu marido sair para ir para casa da minha sogra. Pensava eu que seria um dia igual a tantos outros passado ali pelo Oriente. Mas não. Foi um dia bem diferente e com muita história.
Como sempre acontecia, encontrámo-nos na porta que dá acesso ao Continente. Eu esperei que ele chegasse. Não demorou muito. Ele já tinha ido beber o seu café. Dizia-me que não funcionava sem o beber logo pela manhã.
Assim que me viu, começou a rir-se e beijou-me efusivamente, como sempre. Saboreou o meu beijo e disse que era gostoso. Disse-me que só eu lhe dava os beijos que ele gostava. Até lambia os lábios e parecia que estava mesmo extasiado com eles. Na altura, eu pensava que ele falava verdade. Que eu era muito importante para ele, mas já aqui deixava ver os seus pés de barro que eu ignorava por completo e fingia não ver para não me desiludir cedo de mais.
Apanhou a minha mão e conduziu-me para fora do Centro. Levou-me para o parque de estacionamento perto dos autocarros. De facto que eu ia muito intrigada e perguntava ao meu eu interior o que ele tinha preparado. Senti receio. Estava com um mau pressentimento e agoniava-me o facto de me levar para um sítio daqueles. Era novo para mim. Pensei que me levasse de autocarro para um sítio solitário. Realmente, tive mesmo receio. Porém, o meu receio desvaneceu-se quando parei junto do carro dele. O Mercedes Benz cinzento metalizado estava ali à minha frente. Ele abriu a porta, gentilmente, e convidou-me a entrar.
Sentei-me e ele deu a volta ao carro e foi para o sítio do condutor. Eu continuava sem saber qual o meu destino.
Pôs a chave na ignição e colocou-o a trabalhar. Olhava para mim com um ar de satisfação e ria por ver a minha desorientação. Perguntei várias vezes onde me levava, mas não me disse. Apenas dizia que era surpresa. Mas que surpresa.
Foi com um místico de curiosidade que vi que estávamos na Ponte Vasco da Gama. Voltei a perguntar para onde me levava, mas manteve o seu secretismo. Só se ria e não dizia nada de nada.
Ele conduzia com pouca velocidade. Não sei se para aumentar o suspense ou se era realmente assim. Chamei-o à atenção e respondeu-me que quando vai só, gosta de pisar no acelerador, mas quando leva alguém ao seu lado, tão precioso como eu, tinha que ser cauteloso. Mas um dia, e lá chegarei, isso não aconteceu e não tivemos um acidente por que não calhou.
Porém, neste dia, ia muito devagar e compenetrado na condução. De vez em quando, beijava a minha mão esquerda e metíamos as mudanças ambos de mãos dadas.
A minha admiração foi enorme quando verifiquei que íamos rumo ao Freeport.
Estacionou o carro e andámos pelas ruas do comércio. Lá ia dizendo que gostava disto ou daquilo, mas eu não lhe comprei nada. Não percebia a sua intenção. Era ingénua. Não pensava que andava comigo por puro interesse.
As horas passaram e a hora do almoço chegou. Pusemo-nos a escolher o restaurante. Este não porque ele não gostava da ementa, o outro porque não era recomendável e a sorte caiu no restaurante chinês. Aí abriram-se-me os horizontes. Ele gostava de comida chinesa. O restaurante era muito chique. Os empregados de uniforme a condizer e eu senti-me menos à vontade. Gostava de coisas simples e não tão complicadas.
A carta foi-nos entregue. Uma para cada um. Eu adoro Shop shoe de galinha ( acho que é assim que se escreve ) e ele pediu pato à Pequim. Pediu, ainda arroz xau xau e lá vieram os pauzinhos para comermos o arroz. Eu nem experimentei, mas ele comeu como se estivesse habituado a isso. Ainda me tentou ensinar, mas foi infrutífero. Não consegui. Também pediu crepes e outras iguarias que eu não comi porque não gostei. Houve um prato que ele pediu que eu nem sabia como se comia e ele ensinou-me com tanta perícia que eu estranhei.
Ria-se tanto da minha falta de jeito que eu não achei graça nenhuma e até disse que ninguém nasce "Chinês". Eu adorava coisas com soja e ainda hoje gosto.
Quando chegou a conta, claro que fui eu que paguei. Ali não achei estranho. Ele tinha levado o carro.
O dia estava ensolarado, mas muito frio. Estávamos em Fevereiro.
Então sentámo-nos num banco escondido dos olhares indiscretos.
Foi aí, que mais uma vez, começaram as conversas das descobertas.
Eu perguntei-lhe como ele reagiria se eu terminasse tudo. Respondeu que montava uma tenda à minha porta e cantaria serenatas até eu o receber de volta. Não lhe importava o meu marido, os vizinhos ou a sua família. Ele estava disposto a abdicar de tudo para ficar comigo. Fiquei calada. Não sabia o que dizer. Ele estava a pôr-me num patamar que eu não merecia. Então contei-lhe que já tinha pensado várias vezes em terminar a nossa relação. Não estávamos a ser justos com os nossos cônjuges. Nem com as nossas filhas, as dele e a minha. Se bem que a minha já o conhecia, mas não tinha gostado dele. Não lhe frisei esta parte, não é? Ele pensava que a minha filha tinha ficado a morrer de amores por ele. Era muito convencido.
Puxou a minha cara para me olhar de frente. Eu olhei e ele estava lívido de indignação. Não aceitaria NUNCA um não da minha parte. Disse que eu era o sol dele, o seu caminho, a sua vida, o seu respirar, o seu mundo, a sua alma e muitas outras coisas que não valem a pena serem mencionadas por as achar foleiras.
Disse-me que punha uma tenda à minha porta como já me tinha dito uma vez.  Disse-me que NUNCA nos haveríamos de separar. Eu fiquei  séptica, mas não ripostei.
Perto das 16h, viémo-nos embora.
 O caminho foi feito com a mesma cautela e, de vez em quando, o Pedro cantarolava uma canção de amor. Dizia que era dedicada a mim e para não ter mais pensamentos em o deixar.
Foi levar-me ao comboio e a despedida foi igual a tantas outras. Parecia que o Pedro me amava de verdade. Porém, era um amor interesseiro. Como macho, que se julgava ser, não queria que fosse eu a deixá-lo. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

Convite!

Sexta, 18 de Fevereiro de 2005

É bom voltar a escrever. Umas vezes, penso que vou partir para uma vida mais saudável e sem Fernando Pedro a machucar o meu coração. Outras vezes penso que tenho que expor ao mundo o quanto sofri nas mãos dele. Não como vingança, mas como um alerta para alguma mulher que possa ler e não cair no conto do vigário que o Fernando Pedro conta a todas. Sinto-me dividida entre ajudar quem quiser a minha ajuda ou, simplesmente, encerrar um assunto que, apesar de tudo, ainda me magoa bastante. Não porque sinta alguma coisa por ele. Hoje e vendo bem as coisas, não senti nada senão o fascínio de uma aventura extra-conjugal. Era simpático, amoroso, adivinhava os meus pensamentos e, por fim, já era só uma aberração da natureza. E ainda continua a ser.

08h45m10s
O telefone tocou e eu levantei o auscultador com imensa preguiça. Apetecia-me dormir mais e a Glorinha só vinha às treze horas.

- Estou sim, quem fala?
- Falo eu, se me quiseres ouvir.
- Bom dia. Então estás mais calmo?
- Porquê? Não tenho andado?
- Ultimamente tens andado com ideias esquisitas e sem fundamento.
- Ai chamas isso a ideias geniais que tenho tido para vivermos juntos?
- Não vamos começar, pois não, Pedro?
- Hoje não. Mas não vou esquecer. Tenho um convite para te fazer...
- Ir almoçar contigo? Esse convite já tem barbas.
- Por acaso não é, mas se quiseres vir almoçar comigo, seria muito bom.
- Não. Hoje não vou. Desculpa e não digas que se evitam por que hoje não quero evitar nada.
- Até me tiras a vontade de te fazer o convite!
- Então diz lá!
- Amanhã queres vir ter comigo ao Oriente? Tenho uma surpresa para ti.
- De verdade? Até tenho receio. Não é para ir ver apartamento nenhum, pois não?
- Não. Mas também não te posso dizer o que é a surpresa. Alinhas?
- Hum! Deixa-me pensar bem para não me arrepender.
- Acredita que não te vais arrepender.
- Posso pensar e dar-te a resposta logo?
- Mas tem que ser antes de eu sair.
- Está bem. Logo quando telefonares, eu digo.
- Pois! É que tenho que dizer em casa que venho trabalhar.
- Está bem. Eu logo digo-te e combinamos.
- Agora fica o meu coração aos pulos sem saber o que vais dizer. Eu gostava tanto.
- Depois logo falamos.
- Já me estás a despachar?
- Não. Só vais quando eu te mandar embora. Ficas grudado no telefone. Eu coloco o auscultador de lado e tu ficas aí à espera.
- Engraçadinha. Vê lá não te caia um dente.
- Não me vou repetir.
- Também já sei o que ias dizer, né?
- O costume quando me dizes isso.
- Olha vou sair.
- De verdade? Que pena!
-Tens mesmo pena? Ou estás a gozar-me?
- Não sei, diz-me tu.
- Bem, vou trabalhar. Logo dá-me a boa nova.
- Que "boa nova?" ( já me tinha esquecido do convite)
- De vires ter comigo amanhã.
- Ah! Sim. Logo dou a resposta. Não te aflijas por isso. Se é assim tão importante para ti?
- É para mim e para ti. Então vou fazer qualquer coisa. Senão, não me pagam...
- Até logo. Beijinhos.
- Beijinhos também para ti onde e como quiseres.
- Até logo.

12h30m12s

< Estou a almoçar como um cão. Sozinho. Fazias falta. Bjs só nossos. >

Eu sei
 que ele me estava a passar uma mensagem. Era para lhe pagar o almoço.

17h25m45s

- Estou sim, por favor?
- Já estás melhor? Mais bem disposta?
- Sim. Nunca estive mal disposta.
- Hoje de manhã, deste-me para o azar. Já pensastes?
- Já. 
- E...
-Está bem. Vou contigo. Não sei que será a surpresa, mas não me deves levar para um sítio mau, não?
- Não. Eu sei que vais gostar.
- A ver vamos, como dizem os cegos. E eu vou cegueta. Não sei para onde me levas. É ao Oceanário?
- Frio, frio. Não te posso dizer. É surpresa.
- Pronto. Não faço mais perguntas.
- Logo vais ao msn?
- Vou. Mas é só um bocadinho.
- Um cadinho, está bem. Já chega para dormir a pensar em ti. Agora ainda vou a Santa Apolónia. Até logo. Beijokas doces.
- Até logo. Beijinhos.

Falámos no msn, mas foi pouco tempo. Ele estava acompanhado.







quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Um apartamento!

Quinta, 17 de Fevereiro de 2005

Logo pela manhã fui acordada pelo estridente som do telefone. Ainda dormia. Tinha passado mal a noite a pensar como me haveria de livrar do Pedro. O amor que julgava sentir por ele não era mais que uma paixão no vazio de um coração que não tinha nada para me ofertar. O coração dele era vazio e sem vida. Apenas via o lado da luxúria e do seu bem estar.
Eu sonhava por um amor de verdade e que pensava que tinha encontrado a seu lado. Era tão gentil no princípio que me fez amá-lo e querê-lo para umas horas de prazer. Sabia que ele tinha mulher. Sabia que eles se davam mal ou pensava isso pelo que ele contava. Mas não queria passar o resto da minha vida a seu lado. Nunca pensei nisso. Era mais divertido assim. Dava mais ênfase à relação. Porém ele não pensava assim. Ou fazia-me querer que não era assim.
Atendi o telefone, mas desta vez muito diferente. Estava fria e distante.

- Estou!
- Ena, que grande recepção. Ou ainda estavas a dormir?
- Sim e não.
- Estavas. Eu já dormi contigo e sei como acordas.
- Ai sabes? Então diz-me lá como acordo?
- Com voz rouca e muito ensonada. Mas muito amorosa e isso não aconteceu hoje.
- Tem dias. Hoje é um dia diferente.
- Pena! Vinha com uma ideia para nós.
- Então xuta lá essa ideia genial.
- Estive a pensar que o dinheiro gasto na p****** do L*****, arranjávamos um apartamento. Poderíamos encontrarmo-nos mais vezes e mais à vontade. Era só nosso.
- E onde?
- Aqui no Parque das Nações.
- E logo num sítio baratinho.( Satirizei)  
- Então tens uma reforma tão boa que nem davas por pagar...
- E dizia o quê ao meu marido? Que o dinheiro era para beneficência? A não ser que tu alinhes também.
- Nã, nã. Não tenho dinheiro para isso. Tenho a C******* R***** na escola e ela dá muita despesa.
- Pois, já me tinha esquecido que tu não tens dinheiro para nada.
- Se unirmos forças, conseguimos arranjar um apartamento. Já tive a ver uns aqui na net.
- Pois, mas devem ser caros. E eu não posso disponibilizar esse dinheiro mensalmente.
- Vá lá. Há um aqui perto que custa só 450€. Mesmo perto do meu trabalho. Até podíamos dormir aqui. E quando fossemos viver juntos, já tínhamos um.
- Viver juntos? Mas quem te disse que eu quero isso? Nem tu queres. Não vais deixar a tua família.
- Para viver melhor, até deixo. Tu tens uma boa reforma...
- Espera lá! Estás a pensar no meu dinheiro?
- Nãaaaaaaaaaao. Apenas na tua felicidade e na minha.
- Pois. Eu acredito.
- Que devo fazer para tu acreditares? Olha já não volto hoje para casa e monto uma serenata à tua porta. Queres?
-...............
- Então ficastes calada?
- Isso nem tem pés nem cabeça.
- Água mole em pedra dura, tanto dá até que fura.
- E isso é para dizer o quê?
- Que vou trabalhar.
- Pois. Foge à pergunta.
- Logo falamos?
- Sim, se a conversa for interessante.
Até logo. Beijinhos onde e como quiseres. Fica bem!
- Até logo. Beijinhos.

Quanto desliguei pensei que ele estava doido. Só podia. Talvez fosse para me experimentar.  Desvalorizei e voltei a mergulhar no sono. Durante o dia nunca mais pensei no que me tinha proposto. Pelas 17h03m12s o telefone voltou a tocar.

- Estou sim, por favor?
- Hum! Assim já gosto mais de te ouvir.
- Sou a mesma pessoa.
- Mas agora estás bem disposta.
- Não voltes a estragar.
- Não. Só penso no melhor para nós. Fui ver o apartamento.
- O Quê? Só deves estar doido.
- Não. Estou perfeitamente bem. É ideal. Lindo. Tem vista para o Tejo.
- Não me interessa para onde tem vista. Não quero e pronto.
- Mesmo que isso nos separe?
- Sim.
- Ena ! Tão seca... Não fui nada, mas era um bom investimento. Queres vir vê-lo amanhã?
- Não. Não me interessa. Mete na tua cabeça que nem tu deixas a tua mulher nem eu quero deixar o meu marido.
- Ela está impossível. Agora com esta coisa das finanças nem posso abrir a boca lá em casa. Até saía de boa vontade.
- Mas não vais sair. E se saíres, depressa voltas.Isto é muito bonito, mas por que estamos a encontrarmo-nos de vez em quando.
- Bem, contigo, um homem não pode sonhar com uma vida melhor...(interrompi-o abruptamente)
- Queres uma vida melhor comigo por que tenho uma boa reforma ou por que te sentes bem comigo?
- Pelas duas coisas. Tu és tudo para mim e um dia vamos viver e casar. Eu nem sou casado com ela!!!
- Já é tarde. Amanhã é outro dia.
- Ena! estás com mau feitio.
- Não. Apenas realista.
- Até amanhã. Até logo. Não vais ao msn?
- Talvez. Beijinhos.
- Beijinhos só nossos.

Não fui ao msn. Nem recebi mensagem. Desliguei o telemóvel.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

As minhas mágoas!

Quarta, 16 de Fevereiro de 2005

Mais um dia que fui ter com o Pedro ao Oriente. Foi um dia igual a tantos outros que por ali passámos. Já não sei se será melhor continuar a escrever e a expor a minha vida ou, se por outro lado, terminar  aquilo que comecei para que outras mulheres saibam do que é capaz este fulano. 
Porém, não sei se alguma das mulheres que andam com o Pedro S**, Pedro Sintra, Pedro Lisboa, etc, seguem o meu blog e se as posso ajudar dando a conhecer ao mundo como ele trabalha.

Cheguei ao Oriente perto das 12h. Fiquei à espera dele na porta que dá acesso ao Continente. Foi aí que esperei por ele a primeira vez e muitas outras.
Ele chegou e vinha com um sorriso de orelha a orelha. Abraçou-me e beijou-me com ganância. Senti-me protegida. Pensei que ele era o meu baluarte. Porém, um baluarte tão fraco que ruiu ao menor abanão. Só que eu andava cega e não enxergava direito o que ele andava a tramar. Quando o fiz já era tarde e ele tinha levado tudo de mim.

De mãos dadas percorremos o Centro até às escadas rolantes. Subimos até à área dos restaurantes. Uma vez aí, fomos almoçar ao só peso. Ele colocou-se à minha frente como o fazia sempre. De tabuleiro na mão lá ia colocando o que mais lhe agradava. Eu atrás qual cordeirinho que segue para o matadouro. Já sabia como aquilo funcionava. Ele agia assim para ser eu a pagar a conta. Estúpida de mim. Ele vive à custa de mulheres carentes, divorciadas, viúvas e mal amadas.  Por um punhado de sexo, vende-se. Além dos atributos psicológicos que já lhe atribui ainda vão mais estes. É um chulo, um proxeneta .
Quando dei por ele, já se encontrava numa mesa sentado, ao canto, perto do balcão. A moça pesou o meu prato e disse-me que o senhor da mesa do canto lhe disse que eu pagava. Claro que tinha que pagar, não? 
Senti-me vazia e incapaz de o olhar nos olhos. Perguntou-me se estava tudo bem. "Está" respondi laconicamente. Já não tinha apetite e nem me apetecia estar ali. Apetecia-me fugir dele e da mentira em que se estava a tornar a nossa relação. Mas fiquei e fiquei muitas vezes.
Disse-me que o problema das contas nas finanças não estava resolvido. Pela primeira vez mencionou que, um dia, iria visitá-lo às Mónicas. Eu conheço bem. Foi lá que fiz o meu estágio, uma parte dele.
Eu não respondi e esperei, pacientemente que ele acabasse de comer. O meu ficou lá quase todo. Pouco comi. Tinha perdido o apetite.
Levantou-se e nem perguntou por que eu não tinha tocado no comer. Talvez adivinhasse.
Dali fomos para a rua. Estava um frio enorme. E ainda sentia mais frio por ver a cara de pau que ele era.
Sinceramente não sei do que falámos. Não registei nada. Na minha cabeça apenas estava uma coisa. " Acabar de vez com ele". Tinha que o fazer. Ele não me amava como dizia. Ele estava a fazer o jogo dele. Mas eu não sabia bem que jogo jogar com ele. Era uma espécie de jogo da cabra-cega. Eu tinha os meus olhos vendados.
Foi um dia para esquecer.
Quando cheguei a casa, não sabia o que escrever. Tinha passado tudo em branco na minha mente. Escrevi apenas o que menciono.
No caminho de regresso a casa, chorei copiosamente num banco, numa carruagem de um comboio verde, as minhas mágoas.