quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Fazer anos daqui a 4 dias!

Quarta, 16 de Março de 2005

A minha vida começava aqui a desmoronar-se. Era como um baralho de cartas. Ao ruir uma as outras vão todas atrás. Assim começou a minha vida. Uma vez a tropeçar e ia tudo ao mesmo ritmo.
Já não podia descansar pela manhã. Nem podia ocupar o meu tempo com coisas que me davam prazer. Tinha que obedecer a tudo o que o Fernando Pedro quisesse. Eu deixei de ter vontade própria e a vida também já não era a minha.
Como de costume o telefone tocou logo pela manhã. Eram 08h20m12s.
Com pouca vontade e depois de este ter tocado até quase ao voicemail, atendi com as lágrimas a correrem-me pela minha cara abaixo.

- Estou sim, faz favor?
- Bom dia, bom dia para quem é a flor mais bonita do meu jardim.
- Agora já começam a despontar. A Primavera vem aí e eu já tenho flores. Provavelmente também tens, mas não sou a mais bonita.
- Para mim és a mulher mais bonita que conheci. É contigo que quero ficar para o resto das nossas vidas.
- E conheceste muitas?
- Lá estás tu a dizer essas coisas. Foste a primeira mulher com quem pulei a cerca.
- Ai sim? Um dia vou descobrir e chamar-te "mentiroso". Deixo eu de ser para passares a ser tu. ( mal sabia eu que faltava pouco tempo para descobrir. )
- Hoje estou muito bem disposto. Vou fazer anos daqui a quatro dias e tu vais-me dar o presente que eu quero.
- E o que é que tu queres?
- Então não é o auto-rádio?
- Provavelmente.  
- Não mo vais dar? Já andei a ver na Worten e já vi um que gosto muito.
- Está bem. Depois combinamos.
- Que tens? Parece que estás a chorar?
- Impressão tua. É a minha alergia.
- Bem, meu Amor, vou trabalhar para a linha de Sintra. Não sei se volto a tempo de falar contigo. Vais ao msn?
- Não devo ir. Não esperes. O meu marido tem trazido trabalho para adiantar por ter estado comigo em casa.
- Beijocas bem molhadas, doces, meigas e onde e como tu quiseres. Amo-te muito. Inté. 
- Beijos e até logo, se puderes.


Já não nos falámos e não fui ao msn. Ele enviou uma mensagem a desejar "boa noite".

< Meu Amor de ontem de hoje e de amanhã q tenhas uma boa noite. Sonha comigo. Adoro-te, sabia? Beijocas doces. >

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Encontro em Entrecampos!

Terça, 15 de Março de 2005

Neste dia, e como combinado na véspera, fui encontrar-me com o Fernando Pedro em Entrecampos. Ele estava lá a trabalhar. Esperei demasiado tempo que ele chegasse. Sentia-me enojada e com um pouco de culpa. Poderia estar livre, mas já estava, novamente, presa a ele. Fazia tudo o que ele dissesse. Era como se eu não tivesse vontade própria.
Sentei-me no banco e via passar as pessoas que saiam da estação com uma certa pressa de chegar ao destino. Eu tinha ganhado raízes à espera dele. Já me doía tudo e o que mais me doía era o coração. Sangrava por estar naquela situação.
De repente, e quando estava embrenhada nos meus pensamentos, um toque no ombro chamou-me à realidade. Levantei-me de um salto e ele, gracejando, disse que não era nenhum ladrão. Ladrão daqueles que roubam as carteiras da senhoras, mas ladrão porque me tinha roubado o coração e agora pertencia-lhe.
Envolveu-me em beijos e abraços e passou um dos braços pelos meus ombros e começámos a andar pela Avenida acima. Era o caminho da P******. Eu ia encolhida e sem vontade que o caminho se fizesse. Ele falou que tinha reservado o quarto que tínhamos tido na nossa primeira vez. Era o 306. Já era familiar.
Mas para mim nada me era familiar. Sentia-me encurralada e triste. Ele olhou para mim com aqueles dentes muito brancos a mostrar um sorriso que me encantou. Puxou-me para ele e perguntou o que ensombrava o meu olhar triste e sem vida. "Nada" respondi sem convicção. Mas no fundo do meu ser e se ele pudesse ler veria o quanto eu sofria nesse momento.
Entrámos e fomos à recepção. Eu passei o dinheiro por entre as suas mãos que estavam entrelaçadas nas minhas à espera da dádiva.
Pagou e a chave foi-lhe entregue como se ele fosse o dono daquilo tudo.
Subimos de mãos dadas. Já no quarto ele procurou o canal que já era tão conhecido com música francesa.
Depois, depois entregámo-nos um ao outro sem reservas e sem tabus. Não foi bom nem mau. Nem eu consegui chegar ao clímax nem ele se aguentou para que eu conseguisse. Talvez por que não estava com o mínimo de atenção à minha pessoa. 
Ficámos a conversar agarrados um ao outro. Ele cheirava a transpiração e eu comecei a ficar enjoada com aquele cheiro. Deitei-me de costas para fugir àquele cheiro. Por vezes ele tomava banho antes e dizia que era por ter trabalhado muito e o tempo estar a aquecer, mas desta vez não o fez.
 Falou muito da sua infância. Do tempo em que fugia à escola para andar de fisga na mão perto da capela de São Sebastião. Disse-me que morava aí, mas vim a descobrir mais tarde que não era verdade e que tinha vivido no largo de Santo António onde, ainda hoje se nota pobreza. É um largo em decadência e por detrás da igreja há um imensurável campo de cultivo e não só.
Eu ouvia com a paciência de Jó, mas desejosa que o tempo passasse depressa. De vez em quando tinha um telefonema do serviço, mas ele acrescentava que estava em um outro lugar a trabalhar.
Por fim lá íamos tomar o nosso banho. Ele lavava-me com tanto amor que eu acreditava nesse amor que nunca chegou a ser nada. Sabia fingir tão bem que eu até tinha pena dele e do tempo em que ele era criança com o pai em França e a mãe a trabalhar no duro para que todos tivessem pão.
Depois ele desligava a televisão e nós saíamos para a rua onde o sol de Março é quente à tarde.
Passávamos pela mesma pastelaria e o ritual era o mesmo.
Levava-me à estação. Os seus olhos cor de mel suplicavam por mais um tempinho com ele, mas eu não arriscava. Apanhava o primeiro comboio que aparecia.
A despedida era feita e eu vinha cheia de remorsos pelo que tinha acabado de fazer.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Novo encontro!

Segunda, 14 de Março de 2005

Era tão bom estar descansada sem que ninguém me aborrecesse logo pela manhã. Estivera assim uma semana e fora burra, muito burra em ter voltado, de novo, para o Fernando Pedro. Eu tinha certeza. Não o amava, mas apenas o desejava para outros fins. Todavia, estava errada e paguei bem caro o meu desejo. Ele aproveitou-se disso e quando arrancou de mim aquilo que queria, começou a arranjar-me os mais diversos problemas. Aí eu já não era mais senhora das minhas vontades. Estava presa a ele e não podia sair. Pensava em recuperar o meu dinheiro e a minha dignidade.

Neste dia estava eu ao telemóvel a falar com uma assistente da Vodafone quando o telefone fixo começou a tocar. Não podia ser outra pessoa. Era o Fernando Pedro.
09h15m33s

- Estou sim, por favor?
- Amor mio, sou eu.
- Desculpa mas estou ao telemóvel a falar para a Vodafone. Tenho um problema com o telemóvel. Podes telefonar daqui a pouco?
- Não posso. Vou sair. Falamos depois. Beijinhos doces.
- Beijinhos.

Passado uns minutos o telefone começou a tocar novamente. Como ele disse que ia sair, pensei que fosse outra pessoa e atendi sem saber, realmente, quem era.

- Estou sim, por favor?
- Amor sou eu. Já estava na rua e dentro do carro para sairmos para um trabalho, mas não pude continuar sem falar contigo. Estou cheio de saudades tuas.
- A sério?
- Sim. Os meus colegas disseram que eu estava mesmo apanhadinho por ti. E é verdade.
- Quem diria, hein!
- Já tinha saudades tuas. E estás melhor? 
- Sim. Estou pronta para outra.
- Não digas isso. Não te quero perder de novo. É muito triste pra mim. Nem calculas como passei a semana. Foi horrível. Lá em casa ninguém me podia aturar.
- Folgo em saber isso. Pensei que já me tinhas esquecido...
- Achas? Isso NUNCA vai acontecer. Quero ficar contigo para sempre.
- Não ias sair? Não quero que o chefe te pegue.
- Por ti, faço tudo. Na semana passada fui até V****** F******** para ir ter contigo, mas depois tive medo do teu marido.
- Ainda bem que não vieste. Ele não ficou em casa de bom grado e depois contigo, desabava tudo. Era um Deus nos acuda.
- Por isso voltei para trás. Mas vamos ficar juntos. Escreve o que te digo. E agora tenho de ir. Logo falamos mais. Beijos doces, molhados onde e como quiseres.
- Até logo. Beijinhos.

Fiquei a magicar naquilo que ele tinha dito e a pensar se seria verdade. Porém, não era de mim que ele se queria apoderar, mas não queria perder o auto-rádio e o dinheiro que já tinha pensado em tirar-me. Ele já tinha esquematizado tudo na sua cabeça perversa.
O dia decorreu tranquilo. Ele não tinha dado mais sinal de vida e eu pensei que ele era mesmo um aldrabão.
Por volta das 17h10m09s o telefone fez-se ouvir novamente. Fui atender.

- Estou sim, faz favor?
- Amor mio, que dia mais comprido. Não via a hora de te voltar a ouvir. Estava cheio de saudades.
- Não estou noutro planeta. Podias ter telefonado...
- Lá não tinha telefone. Estávamos no meio do nada.
- Hum! Estou a ver...
- Sabes, estive a pensar que amanhã podias vir ter comigo. Já não te vejo há muito tempo e estou cheio de saudades.
- Mas amanhã? Não sei se estarei bem, ainda...
- Não tens saudades minhas?
- Sim, mas acho que estou fraca.
- Vá lá, não sejas desmancha prazeres. E vamos ser muito felizes. Vens ter comigo a Entrecampos. Fica combinado.
- Está bem. Eu vou.
- Amor que bom que vai ser.
- Olha vamos aproveitando que a minha mãe deve vir, ainda, este mês para a minha casa.
- Oh! Que chatice. Vem pelos meus anos?
- Não. Vem a seguir. E vem na altura que ando a colocar a esquelética. Nunca é boa altura e eu nem sei como tratar dela. 
- Não penses nisso agora. Pensa só que amanhã vamos ser muito felizes.
- Está bem. Hoje já não falamos mais. Ele deve ter trabalho para fazer e não posso ir ao computador.
- Beijinhos de mel molhados, quentes, hum! que gostosos.
- Até amanhã. Beijinhos doces.

Quando desliguei, uma lágrima desceu pela minha face. Tinha perdido a minha liberdade outra vez. Não era que quisesse outro homem, mas era por que eles eram todos uns chatos. Agora estava dependente da vontade de Fernando Pedro e já não podia voltar atrás.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Aquela cabeça não pára de pensar como tramar!

Domingo, 13 de Março de 2005

Já tinha tido tempo suficiente para testar os meus sentimentos. Tinha levado uma semana tão tranquila como há muito tempo não acontecia. Porém, e não sei explicar, enviei uma mensagem ao Pedro a dizer que já estava melhor e que o meu marido já ia trabalhar na segunda. Era o desejo do desconhecido, de ter alguém com quem partilhar, de saber que estava lá mesmo que fosse para deitar a baixo a minha auto-estima.
Recebi de volta a seguinte mensagem:
Eram 14h23m54s

< Meu Amor que saudades q já tinha tuas. Foram dias de desespero, angustia e medo de te perder. Vai ao msn. Bjs de quem te ama. >

Fui ao msn e falámos de coisas boas. Disse que tinha sido o pior tempo da sua vida. Disse-me que tinha ido de comboio com a intenção de ir saber coisas sobre mim, mas desistira e voltara para trás com medo de me arranjar mais problemas. Ainda hoje me interrogo se foi verdade. Disse que não podia nem queria viver sem mim. Eu era tudo para ele. Mais do que a vida que levava. Depois ficámos amigos e amantes novamente. 
Quando desliguei, senti um peso na consciência. Tinha tido o pássaro na mão e deixara-o voar. Voltara a ficar presa a ele. O remorsos tomaram conta de mim e chamei-me burra, três vezes burra. Mas estava feito. Já estava com ele outra vez e a minha vida já não voltaria a ser o que era. Contudo, não adivinhava o que vinha por aí. Aquela cabeça não pára de pensar em tramar seja quem for. Não olha a meios para atingir os fins. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Testar os meus sentimentos!

Segunda, 7 de Março de 2005

Estava decidida a fazer a minha escolha. Não dormi nada de noite a pensar como lhe havia de dizer e o que havia de fazer para estar longe dele e saber se, o que sentia por ele, era amor, paixão ou ódio.
Já era manhã e a luz do dia já entrava pelas frinchas da janela. O meu marido já estava a tomar banho para sair e o Fernando Pedro, segundo ele, já estava a caminho do Oriente.
Então resolvi enviar-lhe uma mensagem, via telemóvel, a dizer-lhe que estava doente e que o meu marido ia comigo ao médico. Não me enviasse nada até eu lhe dizer alguma coisa. De facto estava a ser "mentirosa" pela primeira vez para o Fernando Pedro. Seria uma mentira piedosa mas que me levava ao descanso e a saber quais eram os meus sentimentos. 
Recebi de volta a seguinte mensagem:
07h34m23s

< Amor mio não te quero perder. Logo que saibas o que tens, avisa. Bjs loucos de mel. >


Em todo o dia não recebi nada dele e também nada enviei. Mas pelas 17h13m27s resolvi enviar uma mensagem a dizer que estava doente e que o meu marido tinha que ficar em casa para cuidar de mim. Tinha pedido ao médico um atestado de assistência à família para entregar no emprego. Também pedia que nada me enviasse porque o meu marido iria ficar com o telemóvel, a pedido do médico, para eu descansar. Encontrava-me com um cansaço indescritível e que iria ficar mesmo a descansar.
E foi assim que fiquei sem notícias dele durante uma semana. Queria testar os meus sentimentos e a minha capacidade de resistência ao Fernando Pedro.



quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Novamente a "mentirosa"!

Domingo, 6 de Março de 2005

Neste Domingo as nossas conversa foram parcas. Eu sentia-me triste por ele me continuar a chamar "mentirosa". E ele o que era? O maior aldrabão que se pode imaginar à face da Terra.
Pela manhã enviou uma mensagem, via telemóvel, a dizer o seguinte:
10h11m13s

< Amor mio amo-te muito. O dia de ontem foi fabuloso. Vamos repetir. Quero-te só para mim. Bjs só nossos. >

Não respondi. Fi-lo sofrer ou pensava eu que ele sofria. Sim, de facto que sofria. Não por mim, mas com medo de perder o auto-rádio e mais o que me iria tirar com a maior mentira do século.
Então pelas 15h34m59s enviou outra a dizer que estava no msn.
Fui falar com ele. Foi rápido, mas valeu a pena.
Falei na "mentirosa" e disse que não podíamos continuar assim com esta desconfiança. Respondeu que era na brincadeira e que me amava mais que tudo na vida. Voltou a falar em viver ou casar, se eu quisesse. A minha resposta foi concisa. "Não quero casar contigo e tira isso da tua cabeça."
Disse que não desistia e que iria propor-me SEMPRE casamento já que estava solteiro.
Pouco mais falámos. Eu disse que o meu marido vinha aí.
À noite ainda falámos no msn, mas nada de relevante. Foram só banalidades. Aliás, como eram as nossas conversetas.
Não queria que a noite passasse. Não me apetecia tê-lo, pela manhã, a chatear-me e pensei numa maneira de me livrar dele durante uma semana.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Visita ao Forum Montijo!

Sábado, 5 de Março de 2005

Como tinha ficado combinado no dia anterior, já não nos comunicámos. O serão decorreu sem embaraços para ir ao computador e sem mensagens no telemóvel. Era um descanso. Nem o meu marido me fazia perguntas que eu tinha que engendrar respostas que eu achava que não eram plausíveis nem eu estava numa pilha de nervos a escolher o momento para me retirar e ir ao computador. Foi um Santo serão na companhia do meu marido. Senti-me liberta e com uma ânsia de continuar assim. Era libertador e sentia-me muito feliz. 
Deitei-me com uma Paz de espírito que não conseguia há muito tempo. Adormeci tranquila e sem pesos na consciência. 
Porém, a manhã trouxe-me à realidade. Quando o meu marido se levantou eu acordei para uma realidade inexplicável. Tinha vontade de saber onde me levaria, desta vez, o Fernando Pedro, mas não me apetecia ir ter com ele. Tornara-se uma rotina e eu abomino isso. Gosto de coisas novas e de ser diferente cada dia sem repetir as mesmas coisas vez após vez.
Depois do meu marido sair, levantei-me sem nenhuma razão. O Fernando Pedro já não era "razão" para eu ir a correr atrás dele.
Estive algum tempo para me habituar à ideia que tinha que ir ter com ele. Mas lá me aperaltei e fui para o Centro Vasco da Gama, conforme o combinado.
Cheguei primeiro. Apanhei o comboio das 9 horas, mais coisa menos coisa. Era Sábado e, ao fim de semana, havia comboios de hora a hora. Tínhamos combinado às dez horas e eu não gostava, assim como ainda não gosto, que esperem por mim.
Lá estava eu plantada à porta do Centro. Estava muito frio embora estivéssemos em Março. Eu levava, ainda, o meu casaco comprido. O vento era cortante e eu regelava ali. Neste interim, vislumbrei o Fernando Pedro a descer as escadas que dão para a cave do Centro, local dos nossos encontros.
Vinha muito risonho e começou logo a enviar beijos com a mão. Eu ria e pensava que ele era patusco. Mas já não sabia o que sentia por ele. Era um misto de paixão, amor e ódio.
Quando chegou, abraçou-me nos seus braços fortes e disse-me que ali eu estava protegida de tudo. De facto. Até estava protegida de ser roubada por outras pessoas a não ser só por ele. Beijou-me e disse como era gostoso enquanto lambia a beiçada. Os meus beijos eram os melhores do mundo, como me dizia sempre.
Meteu o seu braço à volta do meu pescoço e rumámos para o local do estacionamento.
Lá estava o Mercedes à nossa espera. Abriu-me a porta e convidou-me a entrar fazendo uma vénia como se fosse mordomo. Ri a bandeiras despregadas. Ele referenciou que eu era muito importante na sua vida e que me havia de tratar como tal para toda o sempre. Ri de gozo e sarcasmo.  Eu sabia que isto não iria durar uma vida. Nem por mim nem por ele. Um dia partia-se a corda que nos unia.
Fomos, novamente, pela Vasco da Gama. Perguntei se íamos ao Freeport e ele respondeu que o dia era passado noutro local. Nem fiz a menor ideia e pensei que, fosse onde fosse, seria um dia igual a tantos outros.
Para minha surpresa estava no Forum do Montijo. Já lá tinha ido com o meu marido, mas não referi isso. Seria um dia estragado e eu já o tinha para mim. Sabia que só me estava a fazer isto para me sacar o auto-rádio. Eu sabia-o, mas continuava ali como se não o soubesse. Era como se estivesse enfeitiçada.
Quando estacionámos o carro, fomos dar uma volta pelo Forum do lado de fora. Nas traseiras o vento abria o meu casaco e fazia sentir-me muito fria. Também não sabia qual o tema da conversa e essa era sempre uma surpresa.
Voltou a falar das nossas personalidades. Mencionou que era mentiroso, mas tinha arranjado uma mulher que não lhe ficava atrás. Em princípio, pensei que se estava a referir à mulher dele, mas a mulher, o alvo, era eu.
Discordei, mas hoje vejo que menti para o meu marido durante tempo. Nunca tinha acontecido e, nos meus diários anteriores, posso comprovar isso. 
Senti-me triste por me apelidar, de novo, de mentirosa. Para ele eu não mentia e, por vezes, sentia-me embaraçada, quando tinha que dizer ao meu marido qualquer coisa ou omitia factos de onde estivera e o que fizera. Mas não mentia. Apenas "omitia" que é uma coisa diferente.
Quando ele viu que eu estava a ficar calada já sabia que a "converseta", como ele dizia, não me estava a cair bem. Mudou de assunto e começou a falar na filha mais nova. A dizer como tinha sido feliz por saber que ia ser pai de verdade, já que da mais velha, era pai de papel. Enfim, nessa  altura senti pena dele. Devia ser triste estar com uma mulher que já vinha com a filha de outro e ajudá-la a criar. Mas ele tinha feito a escolha. Eu não sei se seria tão altruísta a esse ponto. Mas ele sempre me disse que se apaixonou pela bebé antes de se apaixonar pela mãe. Se foi assim ou não, não sei. Apanhei-o em tantas mentiras que deixei de acreditar nele e comecei a ter medo do que aquela cabeça pensava quando queria deitar abaixo.
Entretanto, chegou a hora do almoço. Fomos almoçar ao "Serra da Estrela". Comemos bem. Eles serviram entradas fartas e os pratos eram bem servidos. Só apontei que comemos arroz de feijão com pataniscas de bacalhau. Não sei se foi uma entrada ou o prato principal.
Depois do almoço o tempo começou a ficar quente e, então, fomos dar uma volta pelas lojas. Entrámos em várias e ele gostava de tudo e precisava, mas eu disse que só lhe dava o auto-rádio. Foi aqui que ele decidiu ir ao Rádio Popular para ver preços e comparar com os da Worten.  Pelo que me deu a entender já tinha andado a ver na Worten do Vasco. Contudo disse que na Worten havia mais por onde escolher e melhores, daqueles que tinham tudo como ele queria.
Depressa o tempo passou e a hora do regresso não se fez esperar. Voltámos pela Vasco da Gama.  
O Fernando Pedro foi-me levar à estação. A despedida estava marcada. Beijos e abraços sem nos importarem  os outros passageiros que esperavam na gare. Depois da porta fechada, a mão no vidro como d´habitude. ( Expressão francesa).
Já de regresso a casa fiz um resumo do dia e chorei por não conseguir pôr um ponto final naquela relação que não tinha pernas para andar.