quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Véspera dos anos!

Sábado, 19 de Março de 2005

Foi um dia longo. Quando cheguei a A******, tive uma surpresa. Ia muito compenetrada nos meus pensamentos quando alguém se sentou ao meu lado. Não olhei. Não queria saber quem era e estava longe de adivinhar quem fosse. Como não reagi, alguém disse " Bom dia, minha flor de verde pinho". Voltei-me incrédula. Não esperava mesmo, mas ele queria impressionar-me e fazer-me crer que ele estava ali porque me amava. Fiquei estupefacta a olhar ainda sem acreditar no que os meus olhos viam. Pensei para os meus botões " ou é louco ou quer fazer de mim parva ou, ainda, fazer ver que me ama". Saudei-o com dois beijinhos na face e disse que não esperava aquela surpresa. Ele respondeu-me que me amava muito e que as saudades fizeram com que ele me viesse esperar para estar mais tempo comigo. Se acreditei, não sei. Porém, ele estava a fazer um enorme filme. Apanhou as minhas mãos e fizemos a viagem de mãos dadas.
Já no Oriente fomos tomar o pequeno-almoço. Ele disse que só tinha tomado café, pois sem café, logo de manhã, não funcionava. Mas isso já eu sabia. Eu tomei uma meia de leite e comi um crepe. Ainda hoje, adoro crepes. Mas não foi por ter começado a andar com ele. Eu já os fazia na minha casa com uma receita de uma vizinha minha que tinha vindo de Angola aquando da independência.
A conversa ainda não tinha pés nem cabeça. Eram coisas banais e sem sentido. Ele falava de outro casal que estava noutra mesa e que era seu colega. Também tinha arranjado outra pessoa e ambos tinham vindo trabalhar. Ainda havia outro que tinha ido para o Colombo. Se acreditei, não sei. O facto é que o outro senhor nem reparou em nós e continuou a sua conversa com a senhora que parecia estar mais à vontade que eu.
Eu sentia-me bem ali sentada e não me apetecia mexer. Ali estava mais tranquila e não tinha que fingir o que não sentia. Mas ele estava impaciente e queria ir embora. Queria ir à Worten para expiar e escolher o seu auto-rádio. 
Relembrei-lhe que era cedo e que tinha que andar com ele na mão. Respondeu que íamos vê-lo e ficava guardado até à hora de nos irmos embora.
Como tinha que ser e eu não tinha voto na matéria, lá nos dirigimos para a Worten. Andou a rondar este e aquele. Mas ele já tinha escolhido. Notei no seu semblante. Escolheu o mais caro. Passou dos 500€. Eu tinha pedido um empréstimo na Credial, como já mencionei. Também tinha aberto uma conta no BES que não era o meu banco, mas passou a ser para ter lá dinheiro para o que desse e viesse. Sempre pensei que não ficaria por aí, mas nunca pensei que fosse tanto dinheiro que me pedisse nem que fosse só uma vez.
Perguntei-lhe o que iria dizer em casa quando aparecesse com ele. Respondeu que já tinha estudado uma maneira. Tinha passado pela feira da ladra e que o tinha comprado por uma pechincha. Ri-me e mencionei que afinal não era a única mentirosa. Ele ganhava-me aos pontos. Ele riu-se e disse que a partir de me ter conhecido que a vida dele lá em casa passou a ser uma mentira. Mas na minha não, disse eu sem reservas. Ele questionou-me sobre isso. Respondi que não mentia. Dizia sempre onde ia, apenas não dizia com quem e também não me era perguntado. Logo, eu não mentia. Riu-se mais uma vez e disse que já me tinha arranjado algumas saídas airosas para eu me desenrascar.
Enfim, ele tinha que ficar sempre a ganhar. Não retorqui e perguntei o que tencionava fazer. Pagar e ficar lá ou pedir para reservar.  -Peço para reservar e que vimos buscá-lo pelas 4  e meia. Parece-te bem?
Encolhi os ombros e não respondi. Então chamou um assistente e reservou. Tive que dar um sinal. Paguei 220€ e ficou o resto para pagar na altura do levantamento. Foi a quantia que me foi pedida para reservar.
Dali fomos para o jardim. Ainda era cedo para o almoço.
Falei que a minha mãe viria, novamente, para minha casa. Talvez na semana seguinte, mas não sabia o dia porque eu tinha uma consulta na segunda-feira em Lisboa. Ofereceu-se para me acompanhar. Eu disse que não era preciso, mas ele fez questão e até se melindrou por eu dizer que queria ir sozinha.
Também me disse que metesse a minha mãe num lar sem dizer nada a minhas irmãs. Respondi que não iria fazer isso e que iria tratar da minha mãe até poder. Se bem que já fosse muito complicado para mim, mas tinha a Glorinha que me ajudava. Ficou carrancudo e redarguiu que eu iria ter menos tempo para ele. "Tinha ciúmes", mencionou. E eu mencionei que não havia razão para isso. Era natural as filhas cuidarem das mães. Relembrou que a minha filha nunca me iria fazer isso a mim. Que me meteria no lar dos P***ess**es onde eu já me havia associado. Fingi não ouvir e olhei para o relógio. Já eram horas de almoçar.
Fomos almoçar ao terceiro andar no restaurante de comida a peso. Eu levei muita salada. Andava na clínica de emagrecimento e tinha um certo regime. Ele escolheu picanha e várias saladas. Não comi sobremesa. Paguei, como sempre pagava. Nem neste dia, sua excelência, se dignou pagar. Enfim, mais um nó na garganta.
Dali fomos logo buscar o auto-rádio. Ele queria ir para casa. Paguei o restante e ele apanhou o pacote com tanta alegria que parecia uma criança. Disse-me obrigado, mas mais nada. Nem um beijo nem uma carícia nem um sinal de amor. Nada. Como se tivesse sido uma obrigação.
Já na rua perguntei como era a mulher dele. Disse-me que era muito bonita, mas não sentia amor por ela. Só me disse que eu tinha confundido amor com atracção física e que ele tinha confundido caridade com amor. Eu disse que gostava de a conhecer para ver a sua beleza e a poder estudar como psicóloga. Ele mostrou-me uma foto e, realmente, a senhora era linda. Até me questionei por que ele andava comigo tendo uma mulher tão linda, elegante, magra, com gosto no vestir e um olhar doce. Mas ele voltou a dizer o mesmo. Depois disse-me que não ficasse a  pensar nisso por que o meu interior era mais bonito que o dela. Isso, às vezes, não chega. Tive comiseração de mim própria. Ele andava comigo pelo dinheiro e para poder fazer as passeatas aonde ele nunca tinha ido.
Despedimo-nos na gare do Oriente. Fui para me sentar junto a uma janela e ele colocou a mão como era hábito. Primeiro fiquei aturdida. Já não me recordava o que aquilo queria dizer, mas depois fez-se luz e coloquei a minha. O comboio arrancou e eu vinha mais pobre em todos os sentidos.
Naquele dia não apareceu no msn nem enviou mensagem. Fiquei triste e chorei por ter sido enganada.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Saber ser ordinário!

Sexta, 18 de Março de 2005

Mais um dia em que não me apetecia falar com o Pedro. Mas mais um dia que cedi e deixei que ele comandasse a minha vida. Foi sempre assim até ao momento do "adeus" definitivo. Porém, um "adeus" em que eu é que fiquei prejudicada e ele saiu airoso e com o orgulho em cima por me ter ganho sempre. É mais mentiroso que o pinóquio. Não sei porque não lhe cresce o nariz. Todavia, a menina Flo***** Pe****a (nome falso) assim como falso foi dizer que pertencia à protecção de mulheres ultrajadas e maltratadas assim como o Fernando Pedro faz com as mulheres, me açoitar com fotos e pequenos enxertos de frases que tirava de outros perfis, com falsas esperanças que ele iria pagar pelo que tinha feito a tantas mulheres iguais a mim. Onde se meteu esta mulher que eu achava que era uma guerreira? Era uma falhada como eu e como falhada deu o fora e deixou de aparecer. Não tenha medo. Eu não tive e fiz queixa dele. Mas ele é muito esperto e até enganou um sargento da GNR. A união faz a força e se se juntasse a mim, ambas ganhávamos e ele perdia. Mas a vida está feita de gente falhada e medrosa. Eu não tenho medo. Por isso continuo a escrever, na esperança que ele venha a pagar mais tarde.
Voltando ao dia acima citado, estava ainda deitada e com receio que o telefone tocasse. Não se fez esperar muito que ele não me assustasse com aquele barulho que até rebenta os tímpanos de quem não quer ser incomodada.

08h34m13s

- Estou sim? ( Foi como atendi o telefonema. Estava cansada e não me apetecia ouvi-lo.)
- Ena! Hoje há trovoada aí para esses lados. Que tens?
- Nada, mas já sabia que eras tu e tu não precisas de salamaleques para falar contigo. Já és um da casa, não é assim?
- Se tu o dizes, fico contente por pertencer à casa, mas sem o teu marido.
- Isso é que não pode ser. Ele mora aqui e um dia que eu morra a casa vai para ele.
- Grande filho da...
- Cuidado com o que dizes. Eu nunca ofendi nem ofenderei a tua mulher. Ela é "a tua mulher". Eu só sou a "outra".
- Não digas isso. Eu quero casar contigo. Sou solteiro e posso casar com quem eu quero...
- E com quem queira casar contigo, não é assim?
- E tu não queres?
- Estou farta de dizer que Não quero. Nem tu deixas a tua mulher nem eu deixo o meu marido. E ponto assente, Ok? 
- Bem, hoje não estás bem. Não me queres contar o que se passou?
- Não tenho nada para contar. Não se passou nada. Apenas sou realista e tu és fantasioso.
- Ei, que nome me chamaste. Eu não fantasio.
- Então sonhas que é a mesma coisa.
- Bem, vamos falar, correto?
- Correto. Então diz lá coisas.
- Amanhã vens ter comigo? É que faço anos no Domingo. E quero festejar contigo.
- Posso dar-te a resposta logo?
- Mau! Então não me compras a prenda?
- É que dar prenda no dia antes dos anos, dá azar.
- Não venhas com essas coisas. Eu não acredito.
- Mas acredito eu. Posso dar-ta na segunda...
- Eu quero estar contigo. Já me estou a...
- Não digas mais nada. Quando queres, também sabes ser ordinário.
- Claro. Aprendi muito quando vim para Lisboa.
- Eu sei que sim. Mas vou passar o dia contigo.
- Ainda bem. O meu coração quase que parou. Um dia dá-me um fanico.
- Que engraçado!
- Eu sou "engraçado". E tu sabes isso. Mas agora vou trabalhar. Beijinho molhado, meigo... Hum! Gostoso.
- E com isso me despachas. Beijinho e até logo.


Neste dia só falei com ele no msn. Ele não me telefonou. Enviou mensagem.

18h02m20s

< Meu amor só terminei agora. Logo vai ao msn. Bjs doces. >

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Serás sempre a minha Shakti!

Quinta, 17 de Março de 2005

Estive ausente porque fui passar uns dias ao Algarve, à minha casa. Estava a precisar de descansar da minha escrita e de recordar, mesmo que não queira, os maus momentos que o Fernando Pedro me fez passar.

Estava triste, muito triste a pensar que o telefone tocaria daí a nada. 
De facto não demorou muito. Eram 08h24m36s
Muito infeliz, atendi sem grande entusiasmo. Apetecia-me mais deixar tocar e ignorar aquele telefonema, mas não resisti e estendi a minha mão tremula para o auscultador.

- Estou sim, por favor?
- O meu Amor hoje não está bem? Estás pior? Querida eu amo-te e isso chega para te animar. Força! Vem pra cima. Eu estou muito feliz.
- E posso saber o que te faz tão feliz?
- Amor faço anos. Já são 50, mas bem vividos.
- Sim? Não me digas? E com quem foram tão bem vividos?
- Hei! Lá vem o ciúme ao de cima...
- Não é "ciúme". É curiosidade.
- Bem vividos porque vivo-os à minha maneira. Faço o que gosto e agora até te tenho a ti a meu lado.
- Tens resposta para tudo.
- É a verdade, Amor mio.
- Pois!
- Queres vir almoçar comigo?
- Não posso.
- Eu também não, mas era para ver se estavas disponível. Para mim, nunca estás.
- Tem dias. Nem sempre posso ir a correr quando tu queres. Esqueces que sou casada?
- Não, mas um dia vais casar comigo. Eu quero.
- Pois, tu queres e eu vou logo a correr. E já agora para onde vais?
- Vou prá linha de Cascais e levo alguns homens. Se fosse sozinho, podias ir.
- Vai em paz e trabalha que é para isso que te pagam.
- Já me estás a despachar?
- Não. Se tens que ir, não faças esperar ninguém. Eu não gosto que me façam isso e tu estás sempre a fazê-lo.
- Prontos amorzinho. Vou embora. Posso telefonar?
- Se for depois das cinco...
- Ok! Beijinho e até logo. Bom almoço e pensa em mim.
- Bom almoço. Beijinho e até logo.

Não houve mensagem à hora do almoço. Ele estava a sair com outra mulher. Vim a saber mais tarde.

17h20m10s

- Estou sim, faz favor?
- Depois de um dia de trabalho, é o melhor que me pode acontecer. Ouvir a tua voz doce e meiga.
- Hum! Que romântico. Até parece que não tens coisas melhores.
- Não, não tenho. Tu foste o que melhor me aconteceu na vida. És a minha Shakti. 
- Podia ser outra coisa pior. Um dia, quem sabe...
- Serás sempre a minha Shakti. Amo-te mais que ontem...(interrompi)
- Essa já tem barbas. Vê se escolhes coisas melhores. Isso diz toda a gente.
- Mas eu não sou toda a gente. Eu sou o teu príncipe que te salvará um dia.
- Deixa-me rir como diz o Jorge Palma.
- Gostas dele?
- Gosto muito de o ouvir cantar.
- Hum! Muito me dizes. E não gostas de me ouvir cantar a mim?
- Também. Mas ele é profissional...
- Um dia também serei. Mas não bêbado como ele.
- Não sei se é ou não. Sei que gosto muito dele. A minha filha até costuma dizer que quanto mais bêbedo, melhor canta.
- Bem, vou embora. Logo vais ao msn?
- Não sei.
- Nunca sabes nada. Eu espero. Beijinhos doces, molhados, meigos e carinhosos. Inté..
- Beijinhos e dorme bem.

Não fui ao msn. Recebi a seguinte mensagem:
21h58m45s

< Estive há espera mas não aparecestes. Dorme bem. Bjs doces. Adoro-te sabia? >







quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Fazer anos daqui a 4 dias!

Quarta, 16 de Março de 2005

A minha vida começava aqui a desmoronar-se. Era como um baralho de cartas. Ao ruir uma as outras vão todas atrás. Assim começou a minha vida. Uma vez a tropeçar e ia tudo ao mesmo ritmo.
Já não podia descansar pela manhã. Nem podia ocupar o meu tempo com coisas que me davam prazer. Tinha que obedecer a tudo o que o Fernando Pedro quisesse. Eu deixei de ter vontade própria e a vida também já não era a minha.
Como de costume o telefone tocou logo pela manhã. Eram 08h20m12s.
Com pouca vontade e depois de este ter tocado até quase ao voicemail, atendi com as lágrimas a correrem-me pela minha cara abaixo.

- Estou sim, faz favor?
- Bom dia, bom dia para quem é a flor mais bonita do meu jardim.
- Agora já começam a despontar. A Primavera vem aí e eu já tenho flores. Provavelmente também tens, mas não sou a mais bonita.
- Para mim és a mulher mais bonita que conheci. É contigo que quero ficar para o resto das nossas vidas.
- E conheceste muitas?
- Lá estás tu a dizer essas coisas. Foste a primeira mulher com quem pulei a cerca.
- Ai sim? Um dia vou descobrir e chamar-te "mentiroso". Deixo eu de ser para passares a ser tu. ( mal sabia eu que faltava pouco tempo para descobrir. )
- Hoje estou muito bem disposto. Vou fazer anos daqui a quatro dias e tu vais-me dar o presente que eu quero.
- E o que é que tu queres?
- Então não é o auto-rádio?
- Provavelmente.  
- Não mo vais dar? Já andei a ver na Worten e já vi um que gosto muito.
- Está bem. Depois combinamos.
- Que tens? Parece que estás a chorar?
- Impressão tua. É a minha alergia.
- Bem, meu Amor, vou trabalhar para a linha de Sintra. Não sei se volto a tempo de falar contigo. Vais ao msn?
- Não devo ir. Não esperes. O meu marido tem trazido trabalho para adiantar por ter estado comigo em casa.
- Beijocas bem molhadas, doces, meigas e onde e como tu quiseres. Amo-te muito. Inté. 
- Beijos e até logo, se puderes.


Já não nos falámos e não fui ao msn. Ele enviou uma mensagem a desejar "boa noite".

< Meu Amor de ontem de hoje e de amanhã q tenhas uma boa noite. Sonha comigo. Adoro-te, sabia? Beijocas doces. >

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Encontro em Entrecampos!

Terça, 15 de Março de 2005

Neste dia, e como combinado na véspera, fui encontrar-me com o Fernando Pedro em Entrecampos. Ele estava lá a trabalhar. Esperei demasiado tempo que ele chegasse. Sentia-me enojada e com um pouco de culpa. Poderia estar livre, mas já estava, novamente, presa a ele. Fazia tudo o que ele dissesse. Era como se eu não tivesse vontade própria.
Sentei-me no banco e via passar as pessoas que saiam da estação com uma certa pressa de chegar ao destino. Eu tinha ganhado raízes à espera dele. Já me doía tudo e o que mais me doía era o coração. Sangrava por estar naquela situação.
De repente, e quando estava embrenhada nos meus pensamentos, um toque no ombro chamou-me à realidade. Levantei-me de um salto e ele, gracejando, disse que não era nenhum ladrão. Ladrão daqueles que roubam as carteiras da senhoras, mas ladrão porque me tinha roubado o coração e agora pertencia-lhe.
Envolveu-me em beijos e abraços e passou um dos braços pelos meus ombros e começámos a andar pela Avenida acima. Era o caminho da P******. Eu ia encolhida e sem vontade que o caminho se fizesse. Ele falou que tinha reservado o quarto que tínhamos tido na nossa primeira vez. Era o 306. Já era familiar.
Mas para mim nada me era familiar. Sentia-me encurralada e triste. Ele olhou para mim com aqueles dentes muito brancos a mostrar um sorriso que me encantou. Puxou-me para ele e perguntou o que ensombrava o meu olhar triste e sem vida. "Nada" respondi sem convicção. Mas no fundo do meu ser e se ele pudesse ler veria o quanto eu sofria nesse momento.
Entrámos e fomos à recepção. Eu passei o dinheiro por entre as suas mãos que estavam entrelaçadas nas minhas à espera da dádiva.
Pagou e a chave foi-lhe entregue como se ele fosse o dono daquilo tudo.
Subimos de mãos dadas. Já no quarto ele procurou o canal que já era tão conhecido com música francesa.
Depois, depois entregámo-nos um ao outro sem reservas e sem tabus. Não foi bom nem mau. Nem eu consegui chegar ao clímax nem ele se aguentou para que eu conseguisse. Talvez por que não estava com o mínimo de atenção à minha pessoa. 
Ficámos a conversar agarrados um ao outro. Ele cheirava a transpiração e eu comecei a ficar enjoada com aquele cheiro. Deitei-me de costas para fugir àquele cheiro. Por vezes ele tomava banho antes e dizia que era por ter trabalhado muito e o tempo estar a aquecer, mas desta vez não o fez.
 Falou muito da sua infância. Do tempo em que fugia à escola para andar de fisga na mão perto da capela de São Sebastião. Disse-me que morava aí, mas vim a descobrir mais tarde que não era verdade e que tinha vivido no largo de Santo António onde, ainda hoje se nota pobreza. É um largo em decadência e por detrás da igreja há um imensurável campo de cultivo e não só.
Eu ouvia com a paciência de Jó, mas desejosa que o tempo passasse depressa. De vez em quando tinha um telefonema do serviço, mas ele acrescentava que estava em um outro lugar a trabalhar.
Por fim lá íamos tomar o nosso banho. Ele lavava-me com tanto amor que eu acreditava nesse amor que nunca chegou a ser nada. Sabia fingir tão bem que eu até tinha pena dele e do tempo em que ele era criança com o pai em França e a mãe a trabalhar no duro para que todos tivessem pão.
Depois ele desligava a televisão e nós saíamos para a rua onde o sol de Março é quente à tarde.
Passávamos pela mesma pastelaria e o ritual era o mesmo.
Levava-me à estação. Os seus olhos cor de mel suplicavam por mais um tempinho com ele, mas eu não arriscava. Apanhava o primeiro comboio que aparecia.
A despedida era feita e eu vinha cheia de remorsos pelo que tinha acabado de fazer.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Novo encontro!

Segunda, 14 de Março de 2005

Era tão bom estar descansada sem que ninguém me aborrecesse logo pela manhã. Estivera assim uma semana e fora burra, muito burra em ter voltado, de novo, para o Fernando Pedro. Eu tinha certeza. Não o amava, mas apenas o desejava para outros fins. Todavia, estava errada e paguei bem caro o meu desejo. Ele aproveitou-se disso e quando arrancou de mim aquilo que queria, começou a arranjar-me os mais diversos problemas. Aí eu já não era mais senhora das minhas vontades. Estava presa a ele e não podia sair. Pensava em recuperar o meu dinheiro e a minha dignidade.

Neste dia estava eu ao telemóvel a falar com uma assistente da Vodafone quando o telefone fixo começou a tocar. Não podia ser outra pessoa. Era o Fernando Pedro.
09h15m33s

- Estou sim, por favor?
- Amor mio, sou eu.
- Desculpa mas estou ao telemóvel a falar para a Vodafone. Tenho um problema com o telemóvel. Podes telefonar daqui a pouco?
- Não posso. Vou sair. Falamos depois. Beijinhos doces.
- Beijinhos.

Passado uns minutos o telefone começou a tocar novamente. Como ele disse que ia sair, pensei que fosse outra pessoa e atendi sem saber, realmente, quem era.

- Estou sim, por favor?
- Amor sou eu. Já estava na rua e dentro do carro para sairmos para um trabalho, mas não pude continuar sem falar contigo. Estou cheio de saudades tuas.
- A sério?
- Sim. Os meus colegas disseram que eu estava mesmo apanhadinho por ti. E é verdade.
- Quem diria, hein!
- Já tinha saudades tuas. E estás melhor? 
- Sim. Estou pronta para outra.
- Não digas isso. Não te quero perder de novo. É muito triste pra mim. Nem calculas como passei a semana. Foi horrível. Lá em casa ninguém me podia aturar.
- Folgo em saber isso. Pensei que já me tinhas esquecido...
- Achas? Isso NUNCA vai acontecer. Quero ficar contigo para sempre.
- Não ias sair? Não quero que o chefe te pegue.
- Por ti, faço tudo. Na semana passada fui até V****** F******** para ir ter contigo, mas depois tive medo do teu marido.
- Ainda bem que não vieste. Ele não ficou em casa de bom grado e depois contigo, desabava tudo. Era um Deus nos acuda.
- Por isso voltei para trás. Mas vamos ficar juntos. Escreve o que te digo. E agora tenho de ir. Logo falamos mais. Beijos doces, molhados onde e como quiseres.
- Até logo. Beijinhos.

Fiquei a magicar naquilo que ele tinha dito e a pensar se seria verdade. Porém, não era de mim que ele se queria apoderar, mas não queria perder o auto-rádio e o dinheiro que já tinha pensado em tirar-me. Ele já tinha esquematizado tudo na sua cabeça perversa.
O dia decorreu tranquilo. Ele não tinha dado mais sinal de vida e eu pensei que ele era mesmo um aldrabão.
Por volta das 17h10m09s o telefone fez-se ouvir novamente. Fui atender.

- Estou sim, faz favor?
- Amor mio, que dia mais comprido. Não via a hora de te voltar a ouvir. Estava cheio de saudades.
- Não estou noutro planeta. Podias ter telefonado...
- Lá não tinha telefone. Estávamos no meio do nada.
- Hum! Estou a ver...
- Sabes, estive a pensar que amanhã podias vir ter comigo. Já não te vejo há muito tempo e estou cheio de saudades.
- Mas amanhã? Não sei se estarei bem, ainda...
- Não tens saudades minhas?
- Sim, mas acho que estou fraca.
- Vá lá, não sejas desmancha prazeres. E vamos ser muito felizes. Vens ter comigo a Entrecampos. Fica combinado.
- Está bem. Eu vou.
- Amor que bom que vai ser.
- Olha vamos aproveitando que a minha mãe deve vir, ainda, este mês para a minha casa.
- Oh! Que chatice. Vem pelos meus anos?
- Não. Vem a seguir. E vem na altura que ando a colocar a esquelética. Nunca é boa altura e eu nem sei como tratar dela. 
- Não penses nisso agora. Pensa só que amanhã vamos ser muito felizes.
- Está bem. Hoje já não falamos mais. Ele deve ter trabalho para fazer e não posso ir ao computador.
- Beijinhos de mel molhados, quentes, hum! que gostosos.
- Até amanhã. Beijinhos doces.

Quando desliguei, uma lágrima desceu pela minha face. Tinha perdido a minha liberdade outra vez. Não era que quisesse outro homem, mas era por que eles eram todos uns chatos. Agora estava dependente da vontade de Fernando Pedro e já não podia voltar atrás.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Aquela cabeça não pára de pensar como tramar!

Domingo, 13 de Março de 2005

Já tinha tido tempo suficiente para testar os meus sentimentos. Tinha levado uma semana tão tranquila como há muito tempo não acontecia. Porém, e não sei explicar, enviei uma mensagem ao Pedro a dizer que já estava melhor e que o meu marido já ia trabalhar na segunda. Era o desejo do desconhecido, de ter alguém com quem partilhar, de saber que estava lá mesmo que fosse para deitar a baixo a minha auto-estima.
Recebi de volta a seguinte mensagem:
Eram 14h23m54s

< Meu Amor que saudades q já tinha tuas. Foram dias de desespero, angustia e medo de te perder. Vai ao msn. Bjs de quem te ama. >

Fui ao msn e falámos de coisas boas. Disse que tinha sido o pior tempo da sua vida. Disse-me que tinha ido de comboio com a intenção de ir saber coisas sobre mim, mas desistira e voltara para trás com medo de me arranjar mais problemas. Ainda hoje me interrogo se foi verdade. Disse que não podia nem queria viver sem mim. Eu era tudo para ele. Mais do que a vida que levava. Depois ficámos amigos e amantes novamente. 
Quando desliguei, senti um peso na consciência. Tinha tido o pássaro na mão e deixara-o voar. Voltara a ficar presa a ele. O remorsos tomaram conta de mim e chamei-me burra, três vezes burra. Mas estava feito. Já estava com ele outra vez e a minha vida já não voltaria a ser o que era. Contudo, não adivinhava o que vinha por aí. Aquela cabeça não pára de pensar em tramar seja quem for. Não olha a meios para atingir os fins.